sábado, 5 de setembro de 2026

UMA HISTÓRIA DE AMOR, MEDO E GRATIDÃO

 



Há quem acredite no destino, em algo que, de alguma maneira, estivesse destinado a acontecer. Muitos romances nascem desse imaginário, de uma sucessão de afetos, paixões, encontros e desencontros que, com o passar do tempo, transformam-se em histórias inesquecíveis.

Há histórias que, quando observadas apenas pelos fatos isolados, podem parecer tristes. Mas, quando vistas em sua totalidade, revelam motivos para celebrar. É justamente nos encontros e desencontros que muitas histórias de amor encontram sua força.

A história de ILDO e NELI se insere nesse universo de incertezas, persistência e sentimentos, marcado pela decisão de dois jovens de viver uma história de amor e construir uma vida a dois. Uma história recheada de acontecimentos que parecem confirmar a ideia de que, para alguns, o destino conduz; para outros, é Deus quem aproxima pessoas e abre caminhos que, aos olhos humanos, pareciam improváveis.

Ildo, na verdade, chama-se Ildefonso Ávila Oliveira. Prefere, porém, ser chamado de Ildo. Havia uma razão para isso: quando sua mãe o chamava pelo nome de registro, Ildefonso, ele já sabia que vinha algum acerto de contas sobre seu comportamento.

E aqui, portanto, será Ildo.

Nasceu em Rio Grande, em 1957, e foi criado no Cassino. Era um dos oito filhos de uma família que conheceu de perto as dificuldades e a escassez. Estudou até a sexta série e, ainda jovem, começou a trabalhar como pedreiro e carpinteiro.

A vida da família foi marcada por períodos de carência, quando colocar comida na mesa exigia muito mais do que trabalho. Em algumas ocasiões, a carne disponível era a de animais pouco comuns no consumo da população, como gambá, coruja, mergulhão e garça. Eram tempos difíceis, em que a luta pela sobrevivência fazia com que sua família enfrentasse situações que, em outras circunstâncias, talvez jamais imaginassem viver.

Neli nasceu em 1959, no Capão Comprido, interior de Tavares. Começou os estudos em sua localidade e, quando tinha aproximadamente oito anos, foi enviada para Rio Grande, onde passou a morar na casa de parentes.

Dois jovens. Dois lugares diferentes. Duas histórias que caminhavam separadamente.

Até que o destino — ou Deus, dependendo da forma como cada um prefere compreender a vida — tratou de aproximá-los.

Ildo foi trabalhar em uma escola que ficava em frente à casa onde Neli morava. Foi ali, no cotidiano simples de uma cidade, que seus olhares encontraram uma jovem loira, magra, de cabelos soltos, com jeito de modelo.

Naquele instante, alguma coisa mudou.

O coração acelerou e Ildo sentiu que algo novo começava a acontecer em sua vida.

Vieram os primeiros olhares, a aproximação e as manifestações de afeto. Para Ildo, Neli era a mulher que correspondia ao seu imaginário. E Neli nunca demonstrou rejeição às pretensões daquele jovem apaixonado. Para ele, isso bastava para se sentir o homem mais feliz do mundo.

Paixão é paixão. Por alguns instantes, ela domina a razão e conduz os sentimentos por caminhos que nem sempre obedecem à lógica.

Neli, de maneira tímida, correspondia aos sentimentos de Ildo. A relação se fortalecia e tudo parecia caminhar para algo cada vez mais sólido.

Até que o inesperado aconteceu.

Neli retornou para sua terra natal, Tavares. Ildo permaneceu em Rio Grande.

A distância fez o coração do jovem entrar em ebulição. Seus sonhos pareciam desmoronar. Naquela época, Rio Grande e Tavares estavam muito mais distantes do que parecem hoje. Não havia telefone disponível como atualmente, o canal da Lagoa dos Patos separava as duas cidades e as estradas ainda não ofereciam as facilidades de hoje. Restava o correio.

Tudo era difícil.

Tudo, menos o amor que unia os sentimentos daqueles dois jovens.

A vida seguiu. Ildo não pensava em outras relações, enquanto Neli carregava consigo a breve, mas intensa história de amor que havia vivido. 

Mas Ildo não conseguiu simplesmente seguir adiante.

Poucos dias depois, deixou tudo em Rio Grande e partiu para Tavares ao encontro de Neli.

Chegou a um lugar que lhe era estranho. Talvez, nos primeiros momentos, possamos  pensar: “Ildo disse onde fui me meter?”

Mas aconteceu justamente o contrário.

Ildo começou a gostar daquele novo lugar. Há quem diga que, quando encontramos aquilo que realmente desejamos, até o lugar mais desconhecido se torna familiar. E Ildo tinha Neli em Tavares. O que mais poderia precisar?

O namoro continuou.

Ildo começou a trabalhar naquilo que sabia fazer. A carpintaria e os serviços de pedreiro voltaram a fazer parte de sua rotina.

Mas havia um detalhe: ele chegara a Tavares  apenas com uma mala, algumas roupas já gastas e ferramentas emprestadas de um parente.

Logo, porém, o tio pediu as ferramentas de volta.

E como Ildo iria trabalhar sem os instrumentos necessários para a construção?

Resolveu a questão sentimental, mas agora precisava encontrar uma solução para o trabalho.

Ildo, entretanto, não desistiu.

Conseguiu uma obra. Era a casa de um professor. Antes de começar, pediu um adiantamento do pagamento e explicou que precisava comprar um serrote.

O professor, que ainda não conhecia aquele pedreiro recém-chegado, desconfiou.

Que pedreiro seria aquele que nem sequer tinha um serrote?

Relutou em entregar o dinheiro, procurou informações e pediu um avalista para liberar o adiantamento.

Tudo acertado, Ildo começou a obra. Aos poucos, com seu trabalho, foi conquistando a confiança do contratante.

E, enquanto construía casas, também construía a própria vida.

Ildo e Neli se casaram.

O sonho se realizou. A felicidade dos dois se concretizou e uma nova família começou a nascer.

Hoje, são 49 anos de casamento — tempo suficiente para afirmar que formam um verdadeiro casal raiz. Tem quatro filhos: Izaías  Ezequias, e os gêmeos Samuel e Davi. 


A vida seguiu entre o trabalho na construção civil e, algumas vezes, o cultivo de cebolas. Aos poucos, o novo casal foi organizando a vida e construindo seu caminho.

Mas a história de Ildo e Neli ainda reservaria acontecimentos capazes de provocar fortes emoções.

O primeiro filho nasceu em uma situação que poderia ter terminado em profunda tristeza.

A enfermeira trouxe a criança e disse, infelizmente, que havia nascido sem vida.

Ao lado dela, o bebê permaneceu e Neli tomada por mil pensamentos. Mas, de repente, o menino começou a se mexer.

A tristeza deu lugar à alegria.

O que parecia ser uma tragédia transformou-se em alívio e felicidade. Mãe e filho puderam, finalmente, seguir para casa.

Mas as emoções estavam longe de terminar.

Quando Neli estava grávida pela terceira vez, tudo estava calculado para o nascimento em janeiro. Em dezembro, Ildo foi a Porto Alegre com um amigo para buscar um carro.

Na capital, naquela época, a comunicação era difícil. 

Enquanto isso, em casa, Neli cuidava das vacas de leite que ajudavam a alimentar os filhos. Em determinado momento, um terneiro a atingiu e a feriu. Ela estava grávida de oito meses.

Era o final da tarde.

A noite chegou. As dores começaram.

Neli estava sozinha em casa, sem vizinhos próximos e com duas crianças pequenas.

Por volta das duas horas da madrugada, levantou-se e foi até o curral ordenhar a vaca. Imaginava que, pela manhã, talvez já não tivesse condições de fazê-lo. As crianças precisavam do leite para se alimentar.

Há sentimentos que talvez somente uma mãe consiga explicar.

As dores aumentaram.

Por volta das seis horas da manhã, vieram os nascimentos.

Mas havia uma surpresa.

Neli esperava apenas uma criança.

Nasceram duas.

Eram gêmeos.

Sozinha em casa, Neli reuniu forças que talvez nem soubesse possuir. Realizou sozinha os procedimentos necessários, inclusive cortando os cordões umbilicais.

Pouco depois, o filho mais velho, com aproximadamente quatro anos, acordou e deparou-se com aquela situação.

Neli pediu que ele ficasse junto à porta, observando se alguém passaria pelo local para que pudesse chamar e pedir ajuda.

O menino, assustado e com medo, chorava. Mesmo assim, atendeu ao pedido da mãe.

Até que alguém apareceu.

Ele chamou.

A pessoa levou um susto diante do que encontrou, mas rapidamente buscou outros moradores da região. Aos poucos, chegaram pessoas para ajudar Neli e os recém-nascidos.

Enquanto isso, Ildo estava tranquilo em Porto Alegre. Afinal, os filhos nasceriam apenas em janeiro, e ainda era dezembro.

Quando retornou para casa, o sogro lhe disse:

— Tem mais dois na tua casa.

Ildo talvez tenha pensado que se tratava de uma visita.

Logo, porém, viu os dois bebês.

Os filhos haviam chegado antes da hora prevista.

Diante de tudo resolvido e com a família bem, restava a Ildo imaginar como tudo aquilo havia acontecido — e agradecer a Deus pelo desfecho feliz.

Mas será que as emoções fortes terminariam ali?

Não.

Um dos gêmeos, já crescido, trabalhava em uma obra quando uma parede caiu. Ferros atingiram sua cabeça e ele ficou soterrado sob os escombros até ser retirado.

A possibilidade de não resistir ao ferimento era grande. A cabeça é uma das partes mais sensíveis do corpo humano, e o acidente poderia ter terminado de maneira trágica.

Mas, mais uma vez, tudo deu certo.

A família, de fé cristã, atribui a Deus o fato de ter atravessado tantas situações de risco sem que uma tragédia se consumasse.

E ainda haveria outra situação.

Ildo conseguiu uma vaga em uma empresa de construção de estradas. Ele e um dos filhos trabalhariam na mesma empresa. Fez os exames e, quando tudo estava pronto para sua apresentação, aconteceu algo que ele próprio não soube explicar.

Na noite anterior, teve uma forte impressão de que não deveria ir.

Falou ao filho que também não fosse.

O filho ouviu o pai.

No dia seguinte, o caminhão que transportava os trabalhadores capotou. Várias pessoas morreram.

Ildo e o filho poderiam estar entre as vítimas.

Mais uma vez, o que poderia ter sido uma tragédia não aconteceu com eles.

Hoje, Ildo e Neli olham para a própria trajetória com profunda gratidão. Foram muitos encontros, desencontros, dificuldades, sustos e situações em que a vida pareceu caminhar perigosamente próxima da tragédia.

Ainda assim, permaneceram juntos.

Construíram uma família, enfrentaram as dificuldades e chegaram aos 49 anos de casamento carregando uma história que não se resume apenas ao amor entre dois jovens que um dia se encontraram.

É uma história de persistência, companheirismo, fé e gratidão. Uma história em que os acontecimentos poderiam ter tomado outros caminhos, mas que, para Ildo e Neli, foram conduzidos por uma força maior. E talvez seja justamente aí que esteja a beleza de sua caminhada: depois de tantos encontros com o inesperado, eles continuam juntos, olhando para trás não apenas para lembrar o que viveram, mas principalmente para agradecer por tudo aquilo que conseguiram superar.

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