terça-feira, 15 de setembro de 2026

DANIEL GONCALVES DUARTE: uma história de superação pela educação

 



Há pessoas que nascem em “berço de ouro”, isto é, ao nascerem encontram uma família que possui condições materiais para investir em seus estudos ou que já dispõe de uma estrutura preparada para quando chegarem à idade de trabalhar. Pode ser um comércio, uma propriedade rural, uma empresa, um escritório, entre tantas outras possibilidades. Ao chegar à idade adulta, já existe algo esperando por elas, pronto para ser continuado. É necessário, muitas vezes, apenas dar sequência ao processo.

Porém, há casos em que alguém nasce em uma família que não tem condições de pagar escolas, não possui terras, empresa ou estrutura de serviços. São famílias de baixa renda que lutam dia após dia pela sobrevivência e pela satisfação das necessidades básicas. Em um contexto marcado por profundas desigualdades sociais, essas famílias constituem a maioria.

O entrevistado de hoje é um exemplo de alguém que veio desse segundo contexto familiar. Veio da base social, onde a principal preocupação era satisfazer as necessidades básicas. As limitações materiais restringiam as possibilidades de avançar na pirâmide social.

O entrevistado é DANIEL GONÇALVES DUARTE, popularmente conhecido na comunidade de Tavares como Miraguaia. É filho de Maria Inês, conhecida como Maria Inês do Tio Belo, e do falecido Chico da Carmosa, ou Chico Preto, como era conhecido.

Logo no início da conversa, Daniel afirma que é filho de Maria Inês “com muito orgulho”. Certamente porque ela foi e continua sendo uma mulher trabalhadora, que sempre encara o trabalho e a vida com seriedade e ética.

Daniel é casado há 24 anos com a médica-veterinária Janice Cristiane Chies e é pai de Felipe, Francisco e Eduardo.

Professor de Filosofia, formado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Daniel é servidor público da Prefeitura Municipal de Erechim há 13 anos. Fala com orgulho de sua trajetória profissional:

“Atuei como professor contratado também na rede estadual de ensino de Santa Catarina, onde fui aprovado em concurso recentemente e estou aguardando nomeação. Trabalhei em escolas particulares da cidade de Erechim e também, por mais de 10 anos, dei aula em cursinhos pré-vestibulares nas cidades de Erechim, Passo Fundo e Concórdia.”

VOLTANDO ÀS ORIGENS

Ao recordar suas origens, Daniel lembra:

“Passei a minha infância em Tavares, trabalhando na época da safra da cebola e jogando futebol pelos campos de várzea da região.

Participava dos grupos de jovens da Pastoral da Juventude Católica e atuava na comunidade, participando das diversas atividades da Igreja Católica. Por incentivo da Irmã Anselma, resolvi fazer uma experiência no seminário. Essa experiência, além de me proporcionar uma oportunidade de estudos, colocou em minha caminhada muitas pessoas que seriam importantes na continuidade da minha formação.

Após a experiência no seminário, decidi que deveria continuar estudando. Trabalhei dois anos como professor do ensino fundamental em Tavares e, nesse meio-tempo, resolvi prestar vestibular na Universidade Federal de Pelotas. Como fui aprovado, ingressei no curso de Filosofia em junho de 2002.

Morei por quatro anos na CEU (Casa do Estudante Universitário), onde passei a participar de forma mais ativa do movimento estudantil. Morando na CEU e participando do movimento estudantil, conheci minha esposa, que também era estudante e participante ativa do movimento estudantil.

Formei-me em 2006 e resolvi tentar a sorte na região norte do Estado, onde minha esposa já estava trabalhando. Diante de várias barreiras, sobretudo raciais, foi através do futebol que conheci algumas pessoas que me possibilitaram mostrar, além do futebol, a minha capacidade intelectual e a minha formação acadêmica.

Trabalhei como assessor da Secretaria de Educação e também como professor na rede municipal de Erval Grande.

Em 2008, recebi o convite do então prefeito de Tavares, Gilson Terra Paiva, para ser secretário de Educação do município. Depois de muita reflexão, aceitei o desafio, que seria por um curto período, mas acabou durando de abril ao final de outubro. Nesse período em que estive à frente da Secretaria de Educação, recebi da Câmara de Vereadores de Tavares, por iniciativa dos vereadores Geovani Paiva e Gardel Araújo, uma menção honrosa pelos serviços prestados.

Após essa experiência, mudamo-nos para Itatiba do Sul e comecei a dar aulas na escola estadual, além de atuar em escola particular de Erechim e em cursos pré-vestibulares em Concórdia. Em meio à correria do dia a dia, ajudei a fundar, no município de Itatiba do Sul, o PCdoB — Partido Comunista do Brasil —, pelo qual, nas eleições de 2012, concorri ao cargo de vice-prefeito da cidade. Após as eleições, deixei as aulas do Estado e comecei a trabalhar em pré-vestibulares de Erechim, Passo Fundo e Concórdia.

Em 2019, passei a atuar também na rede estadual de Santa Catarina, onde fiquei até 2024.

Atualmente, trabalho na Prefeitura de Erechim e moro em uma propriedade rural, onde trabalhamos com a criação de gado de corte. Participo de atividades acadêmicas tanto na Universidade Federal da Fronteira Sul quanto no Instituto Federal, campus Erechim.

Participo das reuniões e manifestações do PCdoB em Erechim, faço parte da diretoria do sindicato dos professores de Erechim e continuo a militância por uma sociedade mais justa e igualitária.

Planos futuros: continuar na caminhada junto da família, criar bem os filhos e continuar estudando.”

UMA TRAJETÓRIA DE SUPERAÇÃO

Daniel é, portanto, um daqueles jovens que vieram de uma família de baixa renda, viveram experiências marcadas por limitações materiais durante a infância e a adolescência e, contudo, com a ajuda, sobretudo moral, da família e por meio de sua persistência pessoal, conseguiram avançar, chegar à universidade e concluir um curso superior.

Para um filho de uma família com limitações financeiras e de origem afro-brasileira, não é pouco. Aliás, foi a educação recebida em casa, na educação básica e na universidade que contribuiu para que Daniel se tornasse hoje um cidadão com condições de vida bem diferentes daquelas vividas durante sua adolescência.

Daniel representa um exemplo de superação, contrariando muitas opiniões daqueles que não acreditavam que pudesse avançar na pirâmide social.

A história de Daniel reafirma um raciocínio: em um país marcado por imensas desigualdades sociais, é difícil romper com a condição determinada pelo nascimento. Mas é possível mudar. É possível avançar quando existem foco, esforço, persistência e, sobretudo, a disposição para acreditar na mudança e lutar por ela.


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