O Espaço de Reflexão foi ao encontro de Luiz Agnelo Chaves Martins, mais conhecido como Gordo, historiador, folclorista e tradicionalista. Alguém poderá perguntar: onde ele estudou História ou algum curso semelhante? A resposta surpreende. Agnelo estudou pouco na escola e não chegou a concluir o ensino fundamental. Mas encontrou, ao longo da vida, outra grande escola: a chamada universidade da vida, onde aprendeu — e continua aprendendo — com as leituras, as convivências e as pesquisas.
Luiz Agnelo,73 anos, é casado com a Carla e pai do Rômulo, do Rodrigo e da Carolina.
É um cidadão de notórios saberes. Ouvi-lo falar sobre história, cultura popular, tradições e acontecimentos do passado é como estar diante de alguém que passou muitos anos dentro de uma universidade. Sua fala revela conhecimento acumulado ao longo de décadas, construído não apenas nos livros, mas também na convivência com pessoas e comunidades. É um conhecimento que nasceu da curiosidade e da disposição para aprender.
O GOSTO PELA LEITURA
Ao falar sobre como começou sua aproximação com a história e a cultura popular, Agnelo lembra a influência do pai, que tinha o hábito da leitura e transmitiu esse gosto ao filho.
Conta que sempre ouvia o pai dizer que, por meio da leitura, era possível conhecer o mundo e compreender melhor aquilo que fazia parte do cotidiano. Essa orientação acabou se tornando uma espécie de caminho para Agnelo. A leitura abriu portas e despertou nele o interesse por conhecer as histórias das pessoas, dos lugares e das manifestações culturais.
Nesse processo, ele destaca também a aproximação com o renomado folclorista Paixão Côrtes, quando Agnelo esteve à frente da Secretaria de Cultura e Turismo, durante a gestão do prefeito Ari Alfredo Costa.
Foi naquele período que Agnelo participou do projeto “A Importância de Ser Litoral: Tavares, sua gente e sua cultura popular”, experiência que, segundo ele, contribuiu muito para ampliar seus conhecimentos e fortalecer sua ligação com a pesquisa da cultura e da história local.
ANTES DA PESQUISA, A ESTRADA
Antes de mergulhar no campo da história e da cultura popular, Agnelo teve outra profissão: foi caminhoneiro.
Ele conta, com orgulho, que em 1976, aos 23 anos, levou a primeira carga de cebola para a inauguração da CEASA de Belém do Pará. As viagens até o Nordeste duravam quase uma semana, mas, para um jovem cheio de disposição, a distância não parecia um obstáculo tão grande.
Agnelo gostava da profissão. Recorda que, durante o intervalo da safra, permanecia por lá trabalhando com o caminhão. Também trabalhou na CEASA de Campinas, acumulando experiências que, mais tarde, fariam parte da sua trajetória de vida.
Depois, deixou o volante para ingressar em outra atividade. Passou a vender tratores da Motopel e, durante muito tempo, ficou conhecido como “Gordo da Motopel”. Segundo ele, vendeu centenas de tratores Agrale.
Aquela foi uma época de muito trabalho e oportunidades. Agnelo recorda esse período com um sorriso, lembrando de uma fase importante de sua vida profissional.
Mais tarde, também ocupou o cargo de vice-prefeito de Tavares e, atualmente, atua como empresário do agronegócio.
A CULTURA GAÚCHA COMO PAIXÃO
Mas a entrevista volta ao seu principal foco: os conhecimentos que Agnelo acumulou sobre a história e a cultura popular do Litoral Médio do Rio Grande do Sul.
Ele conta que sempre foi um apaixonado pela cultura gaúcha. Mesmo quando estava distante do Rio Grande do Sul, no Nordeste, costumava vestir a pilcha, despertando a curiosidade e chamando a atenção das pessoas.
Agnelo fala sobre esse assunto com entusiasmo. Enquanto recorda fatos do passado, passa as mãos pelos cabelos e pelo rosto, movimenta os ombros e parece reviver, por alguns instantes, as experiências de outras épocas. São gestos espontâneos que acompanham a lembrança de algo que, para ele, tem um significado especial: a cultura e a história de sua terra.
O PRIMEIRO RODEIO DE TAVARES
Entre as lembranças que guarda, Agnelo destaca um acontecimento que considera importante em sua trajetória tradicionalista:
“Fui eu que fiz o primeiro rodeio em Tavares, na localidade de Capororocas. O primeiro rodeio da Península Litorânea”.
Agnelo também lembra das cavalgadas daquela época. Montado a cavalo, participava dos eventos levando a bandeira do Rio Grande do Sul ou a bandeira do CTG. Para ele, essas manifestações não eram apenas momentos de lazer, mas formas de preservar e transmitir uma tradição que fazia parte da identidade da comunidade.
O RESGATE DA CULTURA POPULAR
Um dos legados que Agnelo destaca em sua trajetória como pesquisador foi o trabalho de resgate do Ensaio e Pagamento de Promessa, manifestação ligada à cultura afro e ao catolicismo rural.
Segundo ele, a tradição possuía uma forte relação com a religiosidade católica. Durante o intervalo das danças, por exemplo, era realizado o terço. Para Agnelo, recuperar essa manifestação significava impedir que uma parte importante da memória cultural da comunidade desaparecesse.
“Se não tivesse sido feito isso, teria acabado, teria morrido essa cultura popular.”
A preocupação com a preservação da memória aparece em diferentes momentos de sua fala. Para ele, cultura popular não é apenas aquilo que está registrado nos livros. Está também nos costumes, nas crenças, nas festas, nas sementes, na alimentação e nas histórias transmitidas de geração em geração.
SEMENTES QUE CARREGAM HISTÓRIA
Agnelo também ressalta o trabalho de resgate das sementes crioulas, entre elas a do feijão sopinha, de origem africana.
Ele não esquece o milho catete, utilizado tradicionalmente para fazer o angu, alimento que, durante séculos, ajudou a sustentar muitas famílias.
Ao falar dessas sementes, Agnelo vai além da agricultura. Mostra que existe história também naquilo que se planta e se colhe. Uma semente pode carregar hábitos alimentares, conhecimentos transmitidos entre gerações e lembranças de um modo de vida que, com o passar do tempo, corre o risco de desaparecer.
A PRESENÇA NEGRA NA FORMAÇÃO DA REGIÃO
Outro aspecto destacado por Agnelo é a contribuição da população negra para a formação histórica e cultural da região.
Ele reconhece a presença e a importância do negro taipeiro, campeiro e charqueador, lembrando que essas pessoas também ajudaram a construir a história econômica, social e cultural do Rio Grande do Sul.
Com orgulho, recorda que, durante sua gestão à frente do CTG Galpão dos Carreteiros, em 1985, foi permitida a entrada de pessoas negras para participar das atividades e das danças da entidade.
Para Agnelo, reconhecer essa participação é também reconhecer uma parte da própria história da comunidade.
UMA VIAGEM AOS AÇORES
Todo esse trabalho de pesquisa e valorização da cultura popular acabou sendo reconhecido pela Casa dos Açores de Porto Alegre.
Em razão de sua atuação, Agnelo recebeu, em 2003, uma viagem com estadia de 15 dias nos Açores, experiência que certamente ampliou ainda mais seus conhecimentos sobre as raízes culturais que ajudaram a formar a identidade do litoral gaúcho.
A viagem representou, de certa maneira, um encontro com parte das origens de uma cultura que ele ajudou a pesquisar e preservar durante tantos anos.
AS GAVETAS DA MEMÓRIA
No final da entrevista, quando parecia que a conversa estava chegando ao fim, Agnelo começou a abrir gavetas.
E, com elas, abriu também parte de sua memória.
Foi mostrando documentos históricos que guarda, registros de diferentes épocas e troféus recebidos ao longo de sua trajetória como pesquisador. Cada documento parecia trazer consigo uma história; cada troféu, uma lembrança de uma caminhada construída com curiosidade, dedicação e amor pela cultura.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores riquezas de Agnelo: guardar não apenas documentos, mas histórias.
E o Espaço de Reflexão, ao ouvi-lo, percebe que a história de uma comunidade também pode estar escondida dentro de uma gaveta, na lembrança de um homem, em uma fotografia antiga, em uma semente crioula ou na voz de quem viveu os acontecimentos.
Ouvir essas pessoas é, portanto, uma maneira de manter viva a memória de um lugar e de sua gente.
E A NOTÍCIA BOA PARA FINALIZAR!
No final Agnelo deu uma notícia boa, que com ajuda da filha está se preparando para escrever um livro sobre suas pesquisas ao longo de décadas, sobre a história e a cultura resultado de seus estudos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário