sábado, 19 de setembro de 2026

MIGUEL E NILZA: 68 anos de casamento, vivências e memórias

 


Há histórias de amor que atravessam o tempo e se tornam parte da própria história de uma família. São trajetórias construídas com companheirismo, respeito, compreensão e, sobretudo, com a disposição de caminhar juntos diante das alegrias e dos desafios da vida.

 É o caso do casal Miguel e Nilza, que chega aos 68 anos de matrimônio celebrando não apenas uma longa união, mas uma vida compartilhada, repleta de momentos, lembranças e experiências que ajudaram a fortalecer os laços construídos ao longo de quase sete décadas.

Ao olhar para essa trajetória, o que chama a atenção é a maneira como os dois continuam vivendo com alegria, serenidade e de bem com a vida. O tempo passou, trouxe mudanças e deixou suas marcas, mas não apagou a cumplicidade que os une.

 Hoje, cercados pelas lembranças de uma vida inteira e pela presença das pessoas que fazem parte de sua história, eles seguem lado a lado, mostrando que o amor também se revela nas pequenas coisas: na companhia, no cuidado, naquele doce compartilhado e na satisfação de ainda ter um ao outro para dividir os dias.

Miguel Chaves Costa nasceu em Tavares, em 26 de julho de 1935 e Nilza Conceição Paiva Costa. Nilza estudou na escola Rural de Tavares e depois foi para a Escola Edgardo. Ela lembra que havia uniforme, saia azul marinho e blusa branca. A mochila era feita de pano, sua mãe quem fazia.

Nilza foi professora por mais de 30 anos, hoje aposentada, falou que alfabetizou três professores que foram diretores da Escola Edgardo: José Réus, José Ariosto e Luiz Etevaldo.  

O Miguel estudou em uma escola que seu pai, o Biloca, tinha em sua chácara, na localidade do Posto.

Miguel foi um gaúcho autêntico,  não apenas porque usava pilcha, ele foi mais do que isso, seu filho posteriormente me passou que :

"Foi laçador muito bom, era canhoto, foi campeão em varios rodeios, Tavares, Bujuru, Tapera ,Rincão e outros.  Fomos campeão Laço Pai e Filho algumas vezes e Laço Veterano além do Laço Duplas. Foi Capataz do CTG Galpão dos Carreteiros  e Vice-patrão da Comissão Campeira dos Rodeios de Tavares"(José Réus).

Perguntei à Nilza sobre sua adolescência e ela falou que para ir um baile somente com a mãe ou uma conhecida de confiança. Lembra que havia os terços domingo a tarde,  pois era difícil aparecer padre aqui para rezar missa, então a comunidade se reunia para o terço. Inclusive, fez questão de revelar que foi em um destes encontros que conheceu o seu marido Miguel, quando ela tinha cerca de 18 anos.

Naquela agradável tarde de fim do inverno sulino, Nilza foi quem começou a participar da entrevista,  o Miguel ficou na área da residência só escutando a prosa, que acontecia na sala. Somente depois de uns 40 minutos é que Miguel,  talvez gostando dos assuntos tratados, resolveu vir para perto de nós e participar da busca de memórias. 

A entrevista, com sorrisos de Nilza, parecia,  às vezes, que ela estava voltando ao passado e revivendo momentos prazeroso de suas vivências. Nilza e o Miguel falaram das festas  de Nossa Senhora e de Santo Antônio e dos bailes das festas.

Contaram que havia os ternos de Santo Antônio,  São João e São Pedro. Quando era oferecido café,  pão,  rosquinha, merengue, pão de ló. Compartilharam o quanto era divertido naquela época estes encontros comunitários. 

Nilza, no entanto faz uma ressalva, que nos bailes era proibido dar "carão", ou seja, se um homem convidasse a moça para dançar não era permitido dizer não. E que podia dar briga se faltasse com o respeito. 

Revelou um fato ocorrido, engraçado, que ela já casada e alguém o tirou para dançar, claro que não aceitei disse ela. E daí ouviu de quem estava querendo dançar com ela, "vou botar fogo nesse cabelo". Nesse momento da prosa ela dá uma gargalhada. 

Voltando a prosa Nilza falou das bebidas servidas nos bailes,  cachaça  e licores. Nas festas Miguel fala que era vinho. Bebiam a vontade até aguentar. Que era comum gente sair vomitando pelas ruas do exagero da bebida. 

Continuando, agora falam dos casamentos,  onde serviam carne de porco assada, churrasco assado em forno de barro.

Lembraram que naquela época havia os meios para conservação das carnes,  como as linguiças. Nilza diz que havia uma espécie de baú onde deixavam a carne curtindo ao sal para depois secar.

O casal disse que gostavam da praia. Sua praia preferida era o Paiva e depois Talhamar, onde aconteciam serenatas até o raiar do dia. Que tempo bom revela Nilza! 

Iam de carreta puxada por bois, para na praia ficar durante Janeiro e fevereiro. Levavam ranchos, disse Miguel, galinhas e até uma vaca numa destas ocasiões levaram para tirar leite para as crianças. 

Chegou a esse momento eu disse que já estava contente com as informações obtidas, o espaço no blog é limitado. Daí a Nilza falou, "é isso nunca chega ao fim"!

Mas, para encerrar ainda quis que falassem das barracas, depósitos às margens da Lagoa dos Patos para receber as cargas trazidas por embarcações de Porto Alegre ou Rio Grande. Miguel disse que chegou haver cerca de 20 barracas.

Havia trapichos na comunidade das barracas que adentravam dentro da lagoa para facilitar o recebimento ou levar produtos até as embarcações. 

Bento Costa, irmão do Miguel, tinha um armazém no local. De onde os agricultores traziam mercadorias, após vender a cebola. 

Levavam cebola, em réstia, de carreta puxadas por bois para vender nas barracas. Miguel lembra que em 1958 foi um ano que a cebola deu muito dinheiro. 

Tive que parar, mas com a sensação que Nilza e Miguel ainda tinham muita informações na memória para compartilhar.

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