PARTE I
Há pessoas que, mesmo não sendo mais jovens, preservam uma extraordinária lucidez e continuam raciocinando com a vivacidade e a curiosidade próprias da juventude. A aposentadoria pode significar o encerramento de uma etapa profissional, mas não representa o fim da disposição para pensar, participar e sonhar. Ao contrário, algumas pessoas seguem movidas pela energia mental, pela experiência acumulada e, sobretudo, pela esperança de que ainda é possível transformar a realidade.
Para essas pessoas, a política continua sendo um instrumento de participação e de construção coletiva, capaz de contribuir para melhorar a vida das pessoas e tornar a sociedade mais justa e humana.
É nesse contexto que se insere Terezinha Brum. Seu raciocínio e sua capacidade de relacionar diferentes contextos colocam-na na condição de uma mulher que ainda pode contribuir muito para a reflexão sobre as relações humanas, a cidade e os caminhos para o avanço da cidadania.
O Espaço de Reflexão foi ouvi-la em uma prosa envolvente. Foram tantas as ideias, lembranças e reflexões compartilhadas que, talvez, tenha sido necessário fazer um recorte e fazer uma segunda parte para esta modalidade de entrevista. Ainda assim, permanecem nesta conversa aspectos importantes de sua trajetória pessoal e profissional.
AS ORIGENS NO CAMPO DA HONRA
Terezinha Brum nasceu há 72 anos no Campo da Honra. Seu nascimento foi acompanhado pela parteira Arlinda do Augusto Major, nome que ela fez questão de registrar ao relembrar suas origens.
É filha de Otília de Araújo Brum, da Costa de Cima, em Mostardas, e de Sezesnando Gonçalves Brum, agricultor e comerciante, filho de Juca B., das Guaritas. Terezinha cresceu em uma família de três irmãos: Jair, já falecido, Nilson e ela.
Sua mãe, Otília, começou a lecionar na Escola do Biloca e, posteriormente, foi para o Campo da Honra. Ao falar sobre ela, Terezinha destaca sua inteligência e, principalmente, o incentivo que dava aos estudos dos filhos.
Ao recordar a infância e a juventude, Terezinha também contextualiza o modo de vida daquela época. Segundo ela, naquele período os filhos obedeciam aos pais, algo que fazia parte da cultura familiar e social, praticamente sem exceções.
Os pais não costumavam sustentar os filhos indefinidamente, mesmo quando tinham condições para isso. Os jovens precisavam trabalhar, conquistar seu próprio dinheiro e aprender a se virar. Muitos pais mandavam os filhos estudar na cidade e, caso fossem reprovados, eles retornavam para casa para trabalhar.
Otília, segundo Terezinha, era uma grande incentivadora da educação dos filhos. Nilson foi estudar em Rio Grande, enquanto Terezinha e Jair foram para Pelotas.
FORMAÇÃO E PRIMEIROS TRABALHOS
Terezinha concluiu o segundo grau e também o curso técnico em Contabilidade. Posteriormente, prestou vestibular na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), onde ingressou no curso de Serviço Social.
Depois de formada, trabalhou por um curto período na Caixa Econômica Federal, como agente administrativa. Em seguida, sua trajetória profissional a levou para longe de sua terra natal.
Participou do Projeto Rondon, no Mato Grosso, durante um mês. Em 1985, retornou à região Norte do país, desta vez para trabalhar em Rondônia como assistente social, atividade que exerceu até o final de 1988.
A experiência de viver durante um período no Norte do Brasil foi significativa para Terezinha. Ela conheceu novas culturas, pessoas com diferentes modos de vida e realidades distintas daquela em que havia crescido. Essa vivência contribuiu para ampliar sua experiência de vida e sua maneira de compreender o mundo — algo que, segundo ela, permanece até hoje.
A EXPERIÊNCIA EM RONDÔNIA
No Norte, Terezinha atuou, como ela própria define, em “um projeto arrojado de ouvir as pessoas”. A experiência permitiu que trabalhasse com diferentes públicos.
“Lá tive experiência com idosos, crianças e adolescentes”, lembra.
Em Rondônia, Terezinha exerceu a função de delegada de Assistência Social, atividade que, segundo sua descrição, tinha características semelhantes às de uma secretaria de Assistência Social nos moldes atuais.
Também coordenou o departamento de trabalho, realizando o cadastro de pessoas desempregadas para encaminhamento ao mercado de trabalho. Além disso, promoveu capacitações para agentes de lojas.
Sua atuação profissional ocorreu nas cidades de Espigão do Oeste e, posteriormente, Pimenta Bueno. Na primeira, a população girava em torno de 12 mil habitantes. Terezinha recorda que havia três hospitais particulares e um hospital público, com atendimento 100% gratuito.
A segunda cidade tinha cerca de 40 mil habitantes.
Entre as iniciativas de que participou, lembra especialmente da realização da Olimpíada do Trabalhador, que reunia diversas modalidades esportivas.
UMA TRAJETÓRIA MSRCADA PELA EXPERIÊNCIA
A passagem de Terezinha pelo Norte do Brasil representou mais do que uma etapa profissional. Foi também um período de contato com diferentes pessoas, culturas e formas de viver. Essas experiências contribuíram para ampliar sua visão sobre a sociedade e sobre as relações humanas.
Em 1988 e 1989, sua trajetória profissional ganhou um novo capítulo. Terezinha foi para São Paulo, onde passou a trabalhar como assistente social na prefeitura de Nova Europa.
Sua história, portanto, é marcada por deslocamentos, estudos, trabalho, contato com diferentes realidades e, sobretudo, pela disposição de ouvir e compreender as pessoas. Uma trajetória que ajuda a explicar a lucidez com que, ainda hoje, observa a sociedade, a política e os caminhos possíveis para melhorar a vida coletiva.
Amanhã a entrevista com Terezinha continua, daí ela retorna para Tavares e trabalha até se aposentar na Prefeitura. Nesta segunda etapa ela vai, ainda, mais fundo na análise, traz questionamentos para reflexões para aqueles que desejam entender melhor Tavares.

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