sábado, 19 de setembro de 2026

MARLI IRGANG GONZAGA: uma trajetória dedicada à educação, à inclusão e às pessoas

 



O ESPAÇO DE REFLEXÃO está indo longe e despertando o interesse de pessoas até de outros Estados. Foi o que aconteceu com uma professora da Fundadaçao Universidade Regional de Blumenau (FURB), que considerou interessante a proposta de contar trajetórias de vida e quis que a sua própria história também fizesse parte das postagens do blog.

Então, o ESPAÇO DE REFLEXÃO conversou com Marli Irgang Gonzaga, natural de Ijuí (RS), educadora aposentada da rede estadual do Rio Grande do Sul, com uma trajetória marcada pelo magistério, pela educação especial, pela inclusão e pelo trabalho com diferentes públicos.

 UMA VIDA DEDICADA À EDUCAÇÃO 

Marli iniciou sua trajetória no magistério em Ijuí, atuando nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Mais tarde, trabalhou no curso de Magistério, onde foi professora de Didática e Psicologia da Educação. Também exerceu funções de direção em escolas municipais e estaduais.

Na APAE de Ijuí, atuou como coordenadora e, durante determinado período, também assumiu a direção da instituição em substituição à diretora. Posteriormente, coordenou 17 APAEs do Rio Grande do Sul e participou da implantação de uma nova proposta de trabalho das APAEs, especialmente relacionada às mudanças trazidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96) no que se refere à inclusão.

Para isso, participou de uma formação em São Paulo, ao lado de diversos dirigentes da área da educação.

Segundo Marli, o trabalho com a inclusão já fazia parte de sua experiência desde a APAE, onde participava da avaliação de crianças oriundas das escolas, buscando identificar aquelas que poderiam ser incluídas na rede regular de ensino e aquelas que seriam público-alvo da instituição.

As experiências foram se ampliando e, ao longo desse período, Marli também passou a atuar diretamente com as famílias das crianças atendidas pela instituição. Participou de grupos de mães, realizou palestras e ofereceu orientações às famílias e à comunidade escolar em geral.

 A EXPERIÊNCIA NA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL 

Marli também exerceu a função de diretora na Escola Luiz Fogliatto, em Ijuí, onde teve contato com diferentes experiências educacionais.

Ao falar sobre a escola de tempo integral e a proposta de escola aberta, ela destaca a importância desses espaços para o trabalho com a diversidade:

“O tempo integral e a escola aberta eram espaços para o trabalho com a diversidade, em que se oferecia uma proposta que vinha ao encontro das necessidades daquele público excluído. As oficinas, com atividades diversificadas, contribuíam para as aprendizagens, o desenvolvimento e as habilidades desses alunos.”

Para Marli, a criação de uma banda na escola foi um dos momentos marcantes dessa experiência:

“A criação de uma banda na escola foi o ápice para aqueles que vieram a participar e motivo de orgulho para as famílias e para a comunidade em geral. Isso acontecia em uma escola de periferia, vizinha da Penitenciária Modulada, onde muitos alunos eram filhos ou parentes de detentos.”

 NOVOS DESAFIOS E DIFERENTES EXPERIÊNCIAS 

Marli viveu diversas experiências profissionais, atuando em diferentes modalidades de ensino e funções.

Após afastar-se da escola para realizar tratamento em razão de um câncer de mama, retornou ao trabalho em outra instituição, próxima de sua casa, onde atuou na coordenação do tempo integral e como professora da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no período noturno.

Segundo ela, o trabalho com a EJA também representava uma forma de atuar com pessoas que, de alguma maneira, haviam vivido a exclusão em determinado período da vida e que estavam retornando aos bancos escolares.

“Era gratificante trabalhar com eles na alfabetização de jovens e adultos”, relata.

A trajetória profissional de Marli, porém, não ficou restrita a Ijuí. Ela saiu de sua cidade natal para viver em outros contextos e enfrentar novos desafios.

Em Porto Alegre, passou a trabalhar em uma escola estadual com a Educação Infantil, nos turnos da manhã e da tarde, retomando conhecimentos adquiridos no início de sua carreira no magistério.

Posteriormente, mudou-se para Pelotas (RS), onde trabalhou na coordenação do tempo integral, em sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e também em um CIEP, com alunos do 5º ano.

A caminhada continuou. Marli passou a trabalhar em regime de itinerância em diversas escolas de Pelotas e Capão do Leão, atuando na área da educação especial até se aposentar, em 2018.

A APOSENTADORIA NÃO SIGNIFICOU PARAR

Depois de aposentada, Marli iniciou um trabalho em uma clínica própria de psicopedagogia. Com a chegada da pandemia, porém, decidiu encerrar as atividades diante dos riscos daquele período.

Parecia que a aposentadoria poderia significar uma pausa definitiva na vida profissional. Mas não foi isso que aconteceu.

Passada parte da pandemia, Marli participou, pela internet, de um processo seletivo para trabalhar em Santa Catarina, na cidade de Gaspar, como psicopedagoga clínica em um centro de atendimento a pessoas com autismo que estava iniciando suas atividades.

Foi chamada e permaneceu no trabalho por dois anos e meio. Depois, atuou como coordenadora de uma escola municipal de Gaspar. Na sequência, foi aprovada em concurso público no município de Brusque, onde passou a atuar como coordenadora da Educação Infantil.

Marli também chegou a assumir como conselheira tutelar, mas permaneceu pouco tempo na função. Segundo ela, algumas questões internas com as quais não compactuava fizeram com que pedisse seu desligamento.

O TRABALHO NA UNIVERSIDADE FURB

Depois dessa experiência, Marli realizou um processo seletivo para a Universidade FURB, onde passou a atuar na área de psicopedagogia clínica.

“Logo depois, fiz processo seletivo para a Universidade FURB, a fim de trabalhar na psicopedagogia clínica. Atualmente, estou em um contrato de dois anos, dos quais já passou um ano. Também trabalho como coordenadora do CEJA em uma escola estadual de Santa Catarina, onde também existe uma parcela de pessoas que vivenciaram a exclusão.”

O OLHAR PARA A DIVERSIDADE 

A trajetória de Marli revela uma característica que esteve presente em diferentes momentos de sua vida profissional: o trabalho com pessoas e com a diversidade.

Ela destaca que essa questão sempre esteve presente em sua caminhada e também em sua formação. Além de psicopedagoga, é especialista em Gerontologia e Psicogerontologia, áreas relacionadas ao trabalho com idosos, envolvendo estimulação cognitiva e aspectos psicossociais.

Também possui formação como especialista em Terapia Familiar.

O trabalho com crianças autistas continua sendo uma de suas áreas de interesse e atuação. Nas conversas com as chamadas mães atípicas, Marli afirma perceber uma realidade marcada, muitas vezes, pela solidão e pela busca constante por atendimento e pelos direitos de seus filhos.

Segundo ela, algumas dessas mulheres são mães solo e acabam enfrentando o abandono do cônjuge justamente em um momento em que mais necessitam de apoio.

“É uma corrida por atendimento, para conseguir uma vaga, medicação, alimentação e atender às necessidades básicas. São mães abandonadas, que precisam cuidar e também precisam de cuidado.”

 A ESCUTA COMO FORMA DE ACOLHIMENTO 

Ao concluir seu relato, Marli destaca a importância da escuta no trabalho que desenvolve como psicopedagoga.

“Diante dessas experiências vivenciadas como psicopedagoga, busco fazer algumas escutas para dar vazão àquilo que está incomodando essas mães e contribuir com o trabalho realizado com seus filhos.”

Essa postura faz com que ela retome uma experiência vivida ainda nos tempos de atuação na APAE de Ijuí, quando trabalhava com grupos de mães.

“Penso no trabalho que fazia na APAE de Ijuí com grupos de mães, que compartilhavam suas experiências sobre os filhos e que permitiam que elas se sentissem melhor e conseguissem maior tranquilidade em relação ao agir diante dos filhos e na busca de sossego para seus corações aflitos.”

A história de Marli Irgang Gonzaga é, portanto, marcada por diferentes lugares, funções e experiências, mas mantém um ponto em comum: o compromisso com as pessoas, com a educação, com a diversidade e, sobretudo, com a escuta de quem precisa ser ouvido.


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