
Há histórias que o tempo não apaga. Elas permanecem vivas na memória de quem atravessou décadas, acompanhou mudanças, construiu caminhos e acumulou experiências que não estão escritas nos livros. Aos 94 anos, esta senhora é testemunha de muitas dessas transformações. Com a memória preservada e a serenidade de quem já viveu muito, ela segue compartilhando lembranças, rodeada pelo carinho dos filhos, pela amizade de pessoas queridas e pela companhia inseparável de um bom chimarrão.
Ao seu redor, a vida parece ganhar outro ritmo. Entre uma cuia e outra, surgem histórias, lembranças e ensinamentos de uma longa caminhada. São momentos simples, mas carregados de significado: uma senhora de 94 anos sentada entre familiares e amigos, conversando, recordando e mostrando que a idade pode trazer não apenas anos vividos, mas também um patrimônio de experiências que merece ser ouvido e preservado.
Essa senhora de 94 anos é Faustina Maria Lisboa Riquinho, mais conhecida por Fausta, nascida em 14 de abril de 1933, nas Guaritas, em Tavares. Na juventude, chegou a ser professora em uma escola na localidade do Posto. Deixou a atividade quando conheceu um policial militar. Os dois se apaixonaram e o relacionamento terminou em casamento. Fausta trocou a sala de aula pelo casamento com Faustino Fontoura Riquinho, natural de São Sepé. Casou-se aos 22 anos e o casal teve sete filhos.
Além da carreira militar de Faustino, a família também trabalhava no cultivo de cebola. Depois de sofrer um acidente em uma das mãos, Faustino precisou se aposentar antes do tempo.
Por alguns anos, Fausta e Faustino moraram em São Sepé e Rio Grande, mas posteriormente retornaram a Tavares, onde retomaram a vida junto à comunidade e à família.
Fausta, apesar de estar próxima de completar um século de vida, ainda goza de boa memória. A audição, porém, está prejudicada. Ao chegar à sua casa para a entrevista, encontrei o ambiente cheio de pessoas: filhas, genros, netas e vizinhas, cerca de dez pessoas. Imaginei que a movimentação fosse motivada pela entrevista, mas logo me disseram que é sempre assim. Fausta vive rodeada de gente.
Sorridente e alegre, Fausta transmite a imagem de uma pessoa de bem com a vida. Perguntei onde havia estudado, e ela respondeu que frequentou uma escola próxima à casa do Bibi. Também se lembrava do nome da professora, Angelina.
Fausta contou que a família era católica e que participava do coral da igreja. Recordou também o nome de algumas colegas, Terezinha Paiva e Etelvina.
Quis saber qual era a alimentação mais comum naquela época. Ela citou feijão, arroz, charque e peixe.
Fausta fez questão de dizer que gostava da praia. Para chegar até lá, iam de carreta puxada por bois. A conversa avançou para os meios de transporte e, nesse momento, ela lembrou que, "naquela época, não havia automóveis". O que existia eram cadeirinhas puxadas por cavalos. Ao recordar aquele período, resumiu: “Hoje tudo é mais fácil!”.
Naquele tempo, os homens costumavam tomar chimarrão, enquanto as mulheres tomavam mate doce. As famílias criavam gado bovino, ovelhas, cavalos, porcos e galinhas.
“Meu pai sempre tinha porco no chiqueiro”, recordou Fausta. Da criação dos animais também vinham alimentos que faziam parte da rotina das famílias. Faziam torresmo e preparavam pão com farinha de milho e torresmo, assado em forno de barro. "Tudo era feito com lenha".
Fausta explica que, quando os porcos eram abatidos, um deles era destinado a ser dado de presente, numa demonstração de solidariedade e dos costumes de uma época em que a vida comunitária tinha forte presença no cotidiano.
O chimarrão continuava passando de mão em mão, enquanto a prosa se desenrolava. Nesse momento da entrevista, perguntei sobre os divertimentos. Fausta começou contando que, “para vir um baile, chorava durante uma semana”, numa tentativa de conseguir a autorização dos pais. Nem sempre recebia o tão esperado sim. Algumas vezes, conseguia o consentimento; em outras, a resposta era negativa.
Nos bailes, destacou Fausta, era proibido dar “carão”. Ou seja, quando um rapaz convidava uma moça para dançar, não era permitido simplesmente dizer não.
O gaiteiro era presença certa nos bailes. As festas começavam no início da noite e, muitas vezes, se prolongavam até o sol aparecer. Durante o evento, também era servido café aos participantes.
Fausta lembrou ainda dos ternos, geralmente realizados na época dos dias de Santos, como Santo Antônio, São João e São Luiz. Segundo ela, as casas eram grandes e os encontros acabavam se transformando em verdadeiros bailes. Chegava o grupo do terno previamente combinado e, muitas vezes, outros grupos apareciam de surpresa. Eram servidos licores e café com pães.
Sobre os casamentos, Fausta recordou que havia churrasco ou sopa e doces à fartura. Eram momentos de confraternização que reuniam familiares, amigos e a comunidade.
Ela também lembrou dos terços. Como não havia padres disponíveis na comunidade, aos domingos à tarde as pessoas se reuniam nas casas ou na igreja para rezar e viver a fé católica.
Fausta destacou ainda como eram comunicadas as mortes. Quando uma pessoa falecia, alguém saía a cavalo para avisar os moradores. Os próprios familiares construíam os caixões na comunidade.
Naquele período, muitas pessoas adoeciam e morriam. Algumas precisavam viajar até Rio Grande em busca de atendimento e recursos médicos. Segundo as lembranças de Fausta, as doenças pulmonares estavam entre as que mais provocavam mortes.
O Biloca era considerado uma espécie de médico pela comunidade e receitava medicamentos. Fausta também recorda o Zé Padre, que, segundo ela, entendia de questões relacionadas à saúde.
O rádio era um importante meio de comunicação, embora poucas famílias tivessem um aparelho em casa. Para quem possuía, ele representava uma das principais formas de receber notícias e acompanhar o que acontecia para além da comunidade.
As roupas também eram confeccionadas em casa. As mulheres bordavam panos de louça, fronhas, lençóis e toalhas de banho. Era um tempo em que muitas necessidades do cotidiano eram atendidas dentro da própria família, com trabalho manual, criatividade e aproveitamento dos recursos disponíveis.
A conversa com Fausta mostra que uma vida longa também pode ser uma espécie de arquivo vivo. Em suas lembranças aparecem costumes, formas de trabalho, alimentação, religiosidade, meios de transporte, festas, relações familiares e maneiras de enfrentar as dificuldades de outros tempos. São fragmentos de uma história que não está necessariamente registrada em documentos, mas permanece guardada na memória de quem viveu.
Aos 94 anos, Fausta continua cercada pela família, pelos amigos e pelo chimarrão, mantendo viva a prosa que atravessa gerações. Ouvi-la é também reconhecer o valor daqueles que carregam consigo experiências de um tempo que passou, mas que ainda pode ser compreendido por meio de suas histórias. Preservar essas memórias é uma forma de valorizar não apenas a trajetória de Fausta, mas também parte da história cotidiana de Tavares.
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