quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CLÍNICA RESILIENCE: cuidado, acolhimento e desenvolvimento humano

 


O cuidado com a saúde emocional e o desenvolvimento humano é fundamental para promover uma melhor qualidade de vida, especialmente durante a infância, período marcado por importantes descobertas, aprendizados e transformações. Nesse contexto, uma clínica de psicologia e práticas integradas desempenha um papel importante no acolhimento e no acompanhamento de pessoas que apresentam dificuldades emocionais, comportamentais ou relacionadas ao desenvolvimento. 

Por meio de atendimentos individuais ou em grupo, o trabalho busca compreender as necessidades de cada pessoa, oferecendo suporte para enfrentar desafios, desenvolver habilidades e fortalecer o bem-estar. Dessa forma, contribui para que crianças, adolescentes e adultos tenham melhores condições de aprender, conviver e se desenvolver de maneira saudável.

O Espaço de Reflexão visitou a Resilience Clínica de Psicologia e Práticas Integradas, localizada em Tavares, para conhecer um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido pela equipe. A conversa foi com a psicopedagoga Karine Medeiros Cunha, uma das proprietárias do estabelecimento, ao lado da psicóloga Adriana Braga. Também atendem neste espaço o psicólogo Juliano Delabary e a nutricionista Luiza Antiqueira.

A Clínica Resilience atua em Tavares e Mostardas há 6 anos com sua atual estrutura. Antes disso, a psicóloga Adriana Braga já realizava atendimentos havia dois anos, dando início a uma trajetória de cuidado e atenção à saúde emocional na região.

Durante a conversa, perguntamos a Karine quem procura os serviços oferecidos pela clínica. Segundo ela, o público é formado por pessoas de diferentes faixas etárias, com maior procura por atendimentos destinados a crianças e adolescentes que apresentam dificuldades comportamentais e/ou pedagógicas e necessitam de acompanhamento especializado.

“Atendemos pessoas de diferentes idades, mas, sobretudo, crianças e adolescentes que precisam de acompanhamento em diferentes aspectos do seu desenvolvimento. Em alguns casos, é necessário realizar avaliações para investigar possíveis transtornos do neurodesenvolvimento e para melhor compreender o funcionamento do indivíduo”, explicou.

Entre os serviços oferecidos pela clínica estão a avaliação psicológica e o acompanhamento psicopedagógico. A psicóloga Adriana Braga realiza a aplicação da Escala Wechsler de Inteligência para Crianças (WISC), instrumento que auxilia na avaliação do funcionamento intelectual de crianças e adolescentes.

Já o trabalho psicopedagógico desenvolvido por Karine Medeiros Cunha envolve a investigação de aspectos relacionados à aprendizagem e ao desenvolvimento, incluindo o rastreio de sinais que possam indicar a necessidade de uma avaliação especializada ou atrasos que precisam de atenção. Para isso, podem ser utilizados instrumentos padronizados, de acordo com sua finalidade e com as atribuições profissionais, contribuindo para identificar possíveis necessidades e orientar os encaminhamentos necessários. Com ambas profissionais, quando há indícios de possíveis transtornos do neurodesenvolvimento, a família pode ser orientada a buscar avaliação com os profissionais habilitados para a investigação diagnóstica e a emissão do respectivo laudo, quando indicado.

De acordo com Karine, aproximadamente 30 pessoas procuram os serviços da clínica semanalmente, o que evidencia a relevância desse tipo de atendimento para a comunidade.

Outro tema abordado na entrevista foi a importância da conscientização das famílias sobre o acompanhamento especializado e o desenvolvimento infantil. Segundo Karine, embora ainda existam desafios para que todos os envolvidos na vida da criança compreendam e reconheçam suas necessidades, a procura pelos serviços da clínica tem aumentado. Esse movimento também é percebido na maior participação dos pais, que vêm se mostrando mais presentes no processo de acompanhamento dos filhos, refletindo uma ampliação da conscientização sobre a importância desses cuidados. 

Anteriormente, a busca por atendimento partia, em sua maioria, das mães. A psicopedagoga também destaca o papel das escolas, que estão cada vez mais atentas à identificação de aspectos relacionados à aprendizagem e ao desenvolvimento dos alunos. Essa aproximação entre famílias, instituições de ensino e profissionais especializados favorece o reconhecimento das necessidades de cada criança e, quando necessário, o encaminhamento para uma avaliação adequada. 

Para a equipe da Clínica Resilience, esse cenário representa um avanço importante na promoção do cuidado e no fortalecimento da parceria entre todos os envolvidos no desenvolvimento infantil.

O trabalho desenvolvido pela Clínica Resilience evidencia a importância do acolhimento, da orientação e do acompanhamento especializado para pessoas que enfrentam dificuldades emocionais, comportamentais ou relacionadas ao desenvolvimento.

 Na infância e na adolescência, a identificação das necessidades individuais e a busca por atendimento adequado podem contribuir para a aprendizagem, a convivência social e o bem-estar a curto e longo prazo. Nesse sentido, a parceria entre famílias, escolas e profissionais da saúde é fundamental para ampliar a compreensão sobre a saúde emocional, reduzir preconceitos e proporcionar melhores condições para o desenvolvimento humano.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

PROFESSOR CRHYSTIAN SILVEIRA: a educação, a fé e a política como caminhos de realização

 

A trajetória de um professor é construída não apenas pelo conhecimento que compartilha, mas também pela esperança, pela autoestima e pela capacidade de inspirar aqueles que o cercam. No cotidiano da sala de aula, sua postura diante da vida pode incentivar os estudantes a reconhecer suas potencialidades, acreditar em si mesmos e buscar novos horizontes. Para o professor Chrystian Silveira, a educação encontra sentido nessa relação entre aprendizagem, confiança e oportunidades de transformação.


Estudioso e movido pela curiosidade, Chrystian vive o exercício constante de ensinar e aprender. Entre a educação e a literatura, transita pela realidade e pela ficção, encontrando diferentes caminhos para ampliar a compreensão do mundo, construir conceitos e desenvolver argumentos. Sua atuação expressa a convicção de que ensinar vai além de transmitir conteúdos: significa também estimular a reflexão e ajudar os alunos a descobrir novas possibilidades.


Tavarense, de 33 anos, Chrystian reúne experiências na educação, na comunicação, na participação comunitária e na política. Em entrevista, relembrou os primeiros passos no mundo do trabalho, falou sobre sua ligação com a Igreja Católica e compartilhou projetos que deseja realizar.


Sua trajetória escolar começou na extinta Escola Pinheiro Machado Sede e prosseguiu na Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho, onde concluiu a educação básica. Graduou-se em Letras, em Rio Grande, e possui especializações em Educação Especial, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia e Saúde Pública. Atualmente, cursa Jornalismo e já concluiu metade da graduação. As diferentes formações e o interesse pela leitura demonstram sua disposição para ampliar conhecimentos e possibilidades de atuação.


OS PRIMEIROS PASSOS NO MUNDO DO TRABALHO


As primeiras experiências profissionais de Chrystian ocorreram na Delegacia de Polícia de Tavares, onde atuou como estagiário por cerca de dois anos. Depois, trabalhou na Sul Pínus e exerceu a função de assessor parlamentar na Câmara Municipal de Vereadores de Tavares. Também atuou na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), entidade representativa do comércio local, onde permaneceu por aproximadamente dois anos.


Posteriormente, ingressou na administração pública como diretor de Turismo, durante o governo do prefeito Flávio. Exerceu a função por quase dois anos, ao lado do então secretário municipal Jorge Lisboa, com quem afirma ter vivido um importante período de aprendizado. O envolvimento com as atividades do setor aproximou-o da vida política e contribuiu para que recebesse incentivo para disputar uma vaga na Câmara de Vereadores.


Em 2016, aos 22 anos, aceitou o convite para integrar a nominata do MDB, candidatou-se a vereador e conquistou uma cadeira no Legislativo tavarense.


PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E TRAJETÓRIA POLÍTICA


Ao comentar os vínculos com a comunidade e os fatores que, em sua avaliação, contribuíram para sua eleição, Chrystian destacou a profunda ligação com a Igreja Católica e a participação em grupos de jovens, especialmente o Proclam’arte, do qual é fundador. Também ressaltou seu envolvimento em iniciativas de diferentes áreas, como ações de preservação ambiental, campanhas do agasalho e atividades comunitárias nas quais interpretou personagens como Papai Noel e o Coelho da Páscoa.


Entre essas experiências, mencionou sua contribuição para a fundação da APAE e a colaboração em bingos beneficentes. A participação comunitária permanece presente em sua vida, com atividades tanto em Tavares quanto em Mostardas.


Ele acredita que esse envolvimento e a convivência com pessoas de diferentes faixas etárias ajudaram a construir sua trajetória política e contribuíram para o apoio recebido nas urnas.


Durante o mandato, divergências de posicionamento e dificuldades de comunicação com o MDB levaram à sua saída do partido. Já próximo do fim da legislatura, filiou-se ao PDT, pelo qual disputou a reeleição e ao qual permanece filiado.


Na segunda disputa eleitoral, realizada durante a pandemia, a campanha concentrou-se em transmissões ao vivo e outras ações nas redes sociais. A votação obtida, entretanto, não foi suficiente para assegurar um novo mandato.


Ao avaliar aquele resultado, Chrystian considerou que a mudança de partido pode ter influenciado seu desempenho eleitoral. Explicou que optou por não expor publicamente os detalhes de sua saída do MDB para preservar ambas as partes. Também lembrou que o PDT reuniu candidatos com votação expressiva e elegeu dois vereadores naquele pleito.


Sobre a presença de jovens na política local, recordou que, na eleição em que conquistou o mandato, havia apenas uma ou duas candidaturas jovens, em um cenário marcado por vereadores que buscavam a reeleição. Segundo ele, sua vitória demonstrou que os jovens também poderiam conquistar espaço no Legislativo e pode ter incentivado novas candidaturas. Nas disputas posteriores, observou a participação de mais de cinco candidatos jovens.


Em 2024, decidiu não concorrer por motivos particulares. Ainda assim, não descarta um retorno à política. Afirma gostar da atividade e enxergá-la como uma oportunidade de trabalhar pelo bem comum e pelo desenvolvimento da comunidade, embora se identifique mais com as funções do Poder Executivo.


A EDUCAÇÃO COMO ESPAÇO DE TRANSFORMAÇÃO


Atualmente, Chrystian leciona na Escola Estadual Onze de Abril, em Mostardas, onde atua há cinco anos. Sua experiência docente também inclui passagens pela Escola Edgardo Pereira Velho, em Tavares, e pela Escola Mário Quintana, na localidade de Solidão.


Na sala de aula, considera essencial fortalecer a autoestima dos estudantes. Para ele, acreditar nas próprias capacidades é um elemento importante para o desenvolvimento pessoal e a busca de objetivos. Ao enfatizar essa convicção, afirma: “Gente sem autoestima, infelizmente, não realiza nada”.


Essa preocupação orienta sua maneira de compreender a docência: além de ensinar conteúdos, o professor pode ajudar os alunos a reconhecer suas possibilidades e a construir confiança para enfrentar desafios.


Chrystian também destaca a satisfação de trabalhar na Escola Onze de Abril, onde encontra um bom ambiente profissional. A relação com a instituição ocupa um lugar importante em sua realização como educador.


VOCAÇÃO, NOVOS ESTUDOS E PROJETOS PARA O FUTURO


Ao ser questionado se havia escolhido a docência por opção ou por oportunidade, respondeu sem hesitar: “Por opção!”.


A resposta resume sua identificação com a profissão e ajuda a compreender o desejo de continuar estudando. Entre seus planos estão cursar Fonoaudiologia e realizar um mestrado, aprofundando conhecimentos e ampliando suas possibilidades de atuação.


Seus projetos também passam pela literatura. Chrystian tem um romance histórico pronto, mas ainda aguarda recursos para viabilizar a publicação. Seu primeiro livro reúne dados geográficos e registros históricos em uma narrativa sobre o início da construção de dois importantes pontos turísticos de Tavares: o Farol Mostardas e a Igreja Católica.


Para viabilizar o lançamento, inscreveu a obra em um edital da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul e aguarda o resultado, na expectativa de ser contemplado.


Com a colaboração de amigos, também prepara seu retorno à comunicação por meio da criação do podcast “Nós, Voz, Eles”, projeto ao qual pretende se dedicar no próximo ano.


Entre a sala de aula, a vivência da fé, a participação comunitária e o interesse pela vida pública, Chrystian constrói uma trajetória marcada pelo desejo de contribuir com a sociedade. Além de aprofundar sua formação e levar seu romance aos leitores, pretende seguir participando dos processos políticos, colaborar com a preservação da identidade de Tavares e criar e apoiar projetos voltados ao fortalecimento da juventude.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

VIDA DE PESCADOR NÃO É MOLEZA: tradição do avô, pai e filho, da água o alimento e renda

 

Na Lagoa do Peixe, a pesca não é apenas uma atividade de trabalho, mas uma tradição que atravessa gerações. No verão, quando chega a temporada do camarão, o pescador se lança às águas em busca do sustento. Em outras épocas do ano, são os peixes que fazem parte de sua rotina.

Herdeiro de uma história familiar, aprendeu com o avô e com o pai os conhecimentos e os segredos da pesca, construindo, desde cedo, uma relação de respeito e pertencimento com a lagoa. Hoje, seguindo os passos daqueles que o antecederam, mantém viva uma tradição que faz parte da identidade das comunidades tradicionais que vivem às margens da Lagoa do Peixe.

Hoje, a prosa foi com Eraldo Machado Lopes, natural de Tavares, nascido há 55 anos e criado na localidade de Guaritas. Agricultor dedicado, principalmente, ao cultivo da cebola, Eraldo também é pescador, como tantos outros agricultores daquela região. Antigamente, a pesca era destinada à subsistência familiar; hoje, tornou-se também uma atividade voltada ao comércio.

Eraldo conta que, no passado, a pesca era uma atividade livre. Bastava ir até a lagoa e começar o trabalho. Pescavam tanto os integrantes das comunidades tradicionais quanto outros moradores do município. Depois da criação do Parque Nacional da Lagoa do Peixe (PARNA), em 1986, a situação mudou. Os órgãos ambientais passaram a estabelecer normas para a pesca, fiscalizar a atividade e definir quem pode ou não pescar na região abrangida pelo parque.

Segundo Eraldo, atualmente há cerca de 200 pescadores cadastrados. Para fazer parte desse grupo, é necessário pertencer às comunidades tradicionais da lagoa e comprovar que se é filho de alguém daquela região.

Como já mencionado no início desta prosa, Eraldo é neto e filho de pescadores. Por isso, pode ser incluído na comunidade de pescadores. Seguindo essa tradição familiar, seus filhos também poderão ser admitidos na atividade, desde que atendam aos critérios estabelecidos.

Embora tenha apenas 55 anos, Eraldo já percebeu mudanças significativas na lagoa ao longo de sua vida. Ele conta que, há cerca de 50 anos, a água era mais profunda e, em alguns lugares, chegava à altura da cintura. Com o passar do tempo, segundo sua percepção, a lagoa foi ficando mais rasa, em um processo que atribui à própria natureza. Atualmente, a quantidade de água é muito menor, o que influencia diretamente a pesca, pois, em algumas ocasiões, a lagoa chega a secar.

Ao falar sobre a pesca do camarão, Eraldo apresenta sua interpretação para o comportamento do crustáceo diante da diminuição do nível da água:

“Com menos água, o camarão está sempre querendo sair e ir para o mar. Os bichos conhecem a natureza. Menos água representa risco para eles; então, se puderem, fogem para o mar.”

O pescador ressalta, porém, que essa é uma interpretação pessoal e que outros profissionais da pesca podem ter entendimentos diferentes sobre o assunto.

As mudanças também atingiram os equipamentos e as práticas de pesca. Eraldo recorda que, antigamente, era possível capturar camarões com redes de arrasto, conhecidas como cocas, prática que hoje é proibida. Também eram utilizados lampiões a gás, chamados popularmente de liquiquinhos. Atualmente, segundo ele, são permitidas apenas lanternas solares.

Durante a conversa, ele também relembrou a antiga Vila da Barra, que existia há cerca de 40 anos. Naquela época, o local contava com escola, hotel, campo de futebol e outras estruturas que davam vida à comunidade. Com o passar do tempo, porém, a natureza foi avançando sobre a vila, e as dunas acabaram invadindo a área ocupada pelos moradores. Hoje, a localidade já não existe há muitos anos, restando apenas algumas ruínas como testemunhas de sua história.

Voltando ao assunto que mais interessa a Eraldo — a pesca do camarão —, ele explica que a atividade ocorre, geralmente, entre dezembro e abril ou maio. O período depende da liberação dos órgãos ambientais competentes, especialmente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), por meio das regras de manejo e fiscalização relacionadas à atividade.

Nesse momento da conversa, Eraldo chama a atenção para uma dificuldade enfrentada pelos pescadores: a proibição da pesca durante determinados períodos, geralmente quando os camarões ainda estão pequenos.

Segundo ele, enquanto os pescadores esperam que os crustáceos cresçam, existe o risco de que eles deixem a lagoa e sigam em direção ao mar.

“Daí, se isso acontecer, todos perdem. Não há garantia de que, ao voltar lá para ver se o camarão cresceu, ele ainda esteja na lagoa. A lagoa não é um cativeiro, onde eles ficam presos”, afirma.

Eraldo explica, ainda, que a salinidade da água também influencia a presença do camarão. Segundo ele, quando a água está muito salgada, o crustáceo não se desenvolve.

Os peixes, assim como os camarões, também podem entrar e sair da lagoa. Perguntei a Eraldo quais são as principais espécies encontradas no local. Ele citou a tainha, o peixe-rei, o linguado e o borriquete. E o siri, que é uma alternativa, que vem junto ao camarão na rede ou capturado através de espinhel. 

Durante a prosa, o pescador também me explicou um pouco da geografia da lagoa, mencionando locais conhecidos pelos trabalhadores da pesca, como Chica, Natalício, Capitão, Formiga, Barra, Paiva, Lagamarzinho, Costa e Veia Terra. Ele também falou sobre a Cambota, onde a pesca é proibida por ser considerada uma área de reprodução.

A rotina dos pescadores exige disposição e resistência física. No fim da tarde, eles colocam as redes na água e, em alguns casos, permanecem acampados em barracas à beira da lagoa. Durante a madrugada, começam a recolher o material e descobrem o resultado do trabalho, que pode ser motivo de comemoração ou de lamentação, dependendo da quantidade capturada.

“Vida de pescador não é moleza”, resume Eraldo.

Ele explica que os pescadores precisam remar os caícos até o local onde estão as redes. Quando há temporal ou vento forte, é necessário puxar a embarcação, enfrentando um percurso de ida e volta que, segundo ele, chega a aproximadamente seis quilômetros. É tudo no esforço físico, como faz questão de destacar.

Uma mudança recente, entretanto, trouxe esperança de dias menos cansativos. Segundo Eraldo, agora está sendo autorizada a utilização de embarcações com motor, o que facilita bastante o trabalho dos pescadores. A novidade é comemorada por ele, pois reduz parte do esforço exigido pela atividade.

Outro problema relatado durante a entrevista é a dificuldade de acesso à lagoa. Conforme Eraldo, alguns proprietários rurais já não permitem que os pescadores atravessem suas propriedades para chegar aos locais de pesca, o que acaba criando obstáculos para o desenvolvimento do trabalho.

Ao final da entrevista, perguntei a Eraldo se, atualmente, vale a pena trabalhar com a pesca do camarão e do peixe. Sua resposta foi direta: hoje, essa atividade já não representa uma opção tão vantajosa como no passado. Ele inclusive não aconselha o próprio filho a seguir essa profissão.

“O preço é baixo, já foi melhor. Nem sempre temos uma safra de camarão que renda, e ele é o principal produto”, conclui.

A conversa com Eraldo Machado Lopes revela uma realidade marcada pela tradição, pelo conhecimento transmitido entre gerações e pela relação profunda entre o homem e a natureza. Ao mesmo tempo, mostra os desafios enfrentados por quem depende da Lagoa do Peixe para trabalhar e garantir o sustento da família. Entre as lembranças de um passado diferente e as incertezas do presente, permanece a história de uma atividade que faz parte da identidade cultural e econômica das comunidades tradicionais da região.

domingo, 11 de outubro de 2026

MARCELO CRISTIANO: entre o trabalho, a política, a fé e os laços familiares


A trajetória deste entrevistado é marcada por valores e tradições que atravessam gerações. Filho de um empreendedor do ramo farmacêutico, deu continuidade ao negócio da família, preservando um legado construído com trabalho, dedicação e compromisso com a comunidade. 

A política também fez parte de sua história, herdada de uma tradição familiar que valoriza a participação na vida pública e o envolvimento com os rumos da cidade. Ao lado dessas dimensões, a religiosidade ocupa um lugar importante em sua vida, assim como a família, alicerce de sua caminhada pessoal e referência para suas escolhas. 

Entre o trabalho, a política, a fé e os laços familiares, este cidadão constrói uma trajetória que revela a influência de suas raízes na formação de sua identidade e na maneira de compreender a vida.


As referências acima dizem respeito a Marcelo Cristiano Paiva Costa, o Marcelo do Ari, 51 anos, natural de Tavares. Ao longo de sua vida escolar, estudou em Tavares, Rio Grande e Mostardas, concluindo o Ensino Médio na Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho, em sua cidade natal.

Marcelo é filho de Ari Alfredo Costa e Maria Helena. Seu pai ocupa um lugar de destaque na história de Tavares, sobretudo por seu espírito empreendedor. Em 1969, aos 23 anos, Ari fundou uma farmácia no município, em uma época em que havia poucas opções para quem precisava de medicamentos. Naquele tempo, algumas pessoas costumavam indicar remédios quando alguém adoecia, realidade bem diferente da estrutura farmacêutica que conhecemos hoje.


Mas a iniciativa empreendedora de Ari não se limitou ao ramo farmacêutico. Em 1990, ele criou a Rádio Tarumã, ampliando sua atuação e contribuindo também para a comunicação local. Além de empresário, desempenhou a função de radialista, com uma programação diversificada, em diferentes formatos.

DESDE CEDO, MARCELO DEMOSTRAVA VOCAÇÃO  PARA ADMINISTRAR

A influência do pai e o contato precoce com o mundo dos negócios ajudaram a despertar em Marcelo o interesse pela administração. Ainda adolescente, aos 15 anos, assumiu responsabilidades na emissora. Como ele próprio recorda: “Com 15 anos, fui administrador da rádio de 1990 a 2000”. Nesse período, também atuou como radialista, apresentando um programa musical.

Ari deixou, igualmente, sua marca na vida política de Tavares, tendo exercido o cargo de prefeito por dois mandatos, de 1983 a 1988 e em outro período 1997 a 2000. Assim, Marcelo cresceu em um ambiente no qual o empreendedorismo e a participação na vida pública faziam parte da história familiar.

Entretanto, embora reconheça a importância dessa herança, Marcelo também vem construindo seu próprio caminho, demonstrando iniciativa e capacidade administrativa — como se diz popularmente, caminhando com as próprias pernas.


A EXPERIÊNCIA NO RAMO FARMACÊUTICO 

Sua trajetória profissional no setor farmacêutico ganhou impulso em Camboriú, Santa Catarina. Entre 2014 e 2017, adquiriu uma farmácia naquele município, dando os primeiros passos como empresário do ramo.

O retorno a Tavares ocorreu por uma razão familiar. Sua mãe enfrentava problemas de saúde e precisava de cuidados, o que exigia que Marcelo ajudasse a irmã Margane nessa responsabilidade. De volta à cidade natal, logo assumiu a farmácia da família e, desde então, permanece à frente do negócio.

Antes de retomar integralmente as atividades no estabelecimento, Marcelo também voltou à administração pública. Durante o governo de Gardel, exerceu o cargo de secretário municipal de Turismo por um ano e meio. Posteriormente, concentrou-se na gestão da Farmácia Popular, atualmente denominada Farmácia Popular da Família.

A EXPERIÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 

A participação na vida pública também integra a trajetória de Marcelo. Durante o segundo mandato de seu pai como prefeito, atuou como secretário municipal de Finanças por um ano e meio. Depois, assumiu a Secretaria de Habitação, Cidadania e Ação Social, onde permaneceu por dois anos e meio.

Foi nesse período que começou uma iniciativa importante para a população de Tavares: o transporte de pessoas com problemas de saúde até Porto Alegre, para consultas com médicos especialistas e a realização de exames.

“Foi nesta época que iniciei, com 22 anos, em meados de 1998, o transporte de pessoas com problemas de saúde a Porto Alegre, para consulta com especialistas ou exames”, relatou.

O serviço, iniciado há quase três décadas, continua existindo até hoje, tendo sido ampliado ao longo dos anos. Trata-se de uma ação que contribui para aproximar os moradores do município dos serviços de saúde especializados, muitas vezes indisponíveis na própria cidade.

FARMÁCIA EM CIDADE PEQUENA: DESAFIOS E OPORTUNIDADES 

Ao conversar sobre o negócio da família, perguntei a Marcelo se uma farmácia é um empreendimento rentável em Tavares. A resposta foi positiva. Segundo ele, apesar de o município ser pequeno e contar com três estabelecimentos do ramo, há espaço para que todos se mantenham em atividade.

Marcelo destacou que a pandemia trouxe resultados favoráveis para as farmácias. Naquele período, os produtos de cosméticos e os itens destinados aos cuidados com o rosto e os cabelos tiveram um crescimento expressivo nas vendas devido ao aumento de exposição e comunicação nas redes sociais.

Isso não significa, porém, que o negócio esteja livre de dificuldades. Ao ser questionado se a farmácia sempre dá lucro, explicou que existem perdas decorrentes de produtos que permanecem muito tempo nas prateleiras. Quando ultrapassam o prazo de validade ou ficam sem condições de comercialização, representam prejuízo para o estabelecimento.

“Nos últimos meses, perdi R$ 6 mil”, revelou, demonstrando que administrar uma farmácia exige atenção constante ao estoque, às vendas e aos custos da atividade.

Mesmo com a experiência acumulada, Marcelo continua investindo em sua formação. Atualmente, é estudante de Farmácia e pretende concluir o curso no próximo ano. Na empresa, conta com quatro funcionárias registradas, além da participação da filha nas atividades do estabelecimento.

A POLÍTICA NOS PLANOS PARA O FUTURO 

Em determinado momento da entrevista, a conversa voltou-se para a política. Afinal, Marcelo vem de uma família com tradição nessa área, na qual o pai e os tios já ocuparam cargos públicos. Diante desse histórico, perguntei por que ele nunca havia se candidatado a vereador ou prefeito.

A resposta revelou que, embora a possibilidade já tenha sido cogitada por outras pessoas, a candidatura nunca havia sido uma pretensão concreta.

“Pois é, até falavam que eu podia ser candidato, mas nunca, de fato, tive a pretensão. Agora é que estou começando a pensar nisso, mas não já, daqui a alguns anos”, contou.

A conversa prosseguiu, e Marcelo confessou que se identifica mais com o perfil do Poder Executivo. Filiado ao Progressistas (PP), admite que poderá, no futuro, ingressar mais diretamente na disputa política e colocar em prática o que chamou de “empreendedorismo político”.

A expressão sugere a intenção de levar para a gestão pública a experiência adquirida na iniciativa privada, especialmente no campo da administração, do planejamento e da busca por resultados. Por enquanto, contudo, essa possibilidade permanece como um projeto para os próximos anos.


Neste momento, segundo Marcelo, suas prioridades são a farmácia e a família. A religiosidade também ocupa um espaço significativo em sua trajetória. Evangélico há mais de 15 anos, foi batizado na Assembleia de Deus e, atualmente, frequenta a igreja Brasil para Cristo.

Na vida familiar, compartilha sua caminhada com a esposa, Jerusa, com quem é casado há 32 anos. É pai de Kételin e Kédyson e também desfruta da alegria de ser avô de Marcela.

Assim, entre as responsabilidades profissionais, a experiência na administração pública, os planos para o futuro e a dedicação à família, Marcelo procura conciliar diferentes dimensões de sua vida.


Marcelo Cristiano Paiva Costa é um cidadão de alto astral, cuja trajetória reúne experiências no empreendedorismo, na administração pública e na vida familiar. Filho de um homem que ajudou a construir parte da história comercial e política de Tavares, recebeu das raízes familiares referências importantes, mas também buscou experiências próprias para desenvolver sua capacidade de administrar e empreender.

Sua história mostra como os exemplos familiares podem influenciar escolhas e abrir caminhos, sem determinar, necessariamente, todos os passos de uma pessoa. Entre a continuidade do negócio da família e a possibilidade de novos projetos na política, Marcelo segue construindo sua trajetória, tendo o trabalho, a fé e os laços familiares como referências para o presente e para o futuro.

sábado, 10 de outubro de 2026

DE DOMÉSTICA E BABÁ AO DOUTORADO: Claudiana transforma a própria história pela força da educação

 



A emocionante história de Claudiana Raymundo dos Anjos ilustra o poder transformador do ensino.

Criada na periferia de Vitória, ela começou trabalhando cedo como babá e doméstica.

Sua rotina profissional começava às 6h30 e os estudos se estendiam até a meia-noite.

Após ser reprovada por escassos seis décimos, ela persistiu com intensa dedicação.

Em 2010, aos 26 anos, ingressou na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Tornou-se a primeira pessoa de toda a sua linhagem familiar a acessar a universidade.

Durante a jornada acadêmica na graduação, planejou economias para manter o sustento.

No mestrado, pesquisou práticas de inclusão para estudantes que possuem baixa visão.

O doutorado contou com investigações internacionais e três visitas técnicas ao México.

Conciliou prazos, pesquisas e a docência substituta com os desafios da maternidade.

Em setembro de 2026, aos 41 anos, Claudiana defendeu com sucesso sua tese de doutorado.

Hoje, seu exemplo inspira novas gerações de mulheres de sua família a cursar o ensino superior.

Fonte: A trajetória completa de Claudiana foi reportada em matérias especiais de veículos jornalísticos e acadêmicos, incluindo o portal de notícias Folha Vitória e registros do Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufes. #mulher #mulheres #estudo #superacao #Faculdade

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

MARTA PAIVA: o trabalho, o lazer e a igreja em sua vida

 

Para muitas mulheres, empreender vai muito além da busca por uma renda complementar para a família. É também uma forma de conquistar autonomia, desenvolver talentos e encontrar no trabalho uma fonte de realização pessoal. Entre desafios, aprendizados e conquistas, essas mulheres constroem seus próprios caminhos, transformando ideias e habilidades em oportunidades e mostrando que o empreendedorismo também pode ser uma expressão de coragem, dedicação e vontade de crescer.

Uma das mulheres empreendedoras de Tavares é Marta Paiva, proprietária da loja e bazar Ebenézer. O Espaço de Reflexão conversou com ela para conhecer sua trajetória e valorizar uma iniciativa que, ao longo dos anos, se consolidou no comércio local.

Marta contou que seu falecido marido trabalhava com arroz e gado. O casal tinha um espaço alugado para a Câmara de Vereadores que, em determinado momento, deixou o local, fazendo com que o prédio ficasse sem utilização. Foi então que Marta começou a pensar em uma maneira de aproveitar aquele espaço amplo e bem localizado.

Decidiu montar um bazar, que, desde o início, deu sinais de que poderia se tornar um negócio bem-sucedido. Depois de um ano, Marta deu mais um passo como empreendedora: começou a vender roupas no mesmo local, dando início à loja.

Assim, com o bazar e a loja, o empreendimento segue em atividade desde 2002. Brinquei com Marta que, pelo tempo de funcionamento, o negócio demonstra ter sido um sucesso, pois, se estivesse dando prejuízo, certamente já teria fechado. Ela, porém, respondeu com bom humor, lembrando o que geralmente dizem os comerciantes: “Nem tanto. Tem meses que rende pouco, e ainda temos as funcionárias para pagar”.

Marta explicou que os produtos do bazar são adquiridos por meio de pedidos, com entrega feita pelos fornecedores. Já as roupas são buscadas em diferentes regiões, como Santa Catarina, São Paulo e a Serra Gaúcha. “São Paulo, vou uma vez por ano; Santa Catarina, duas ou três vezes por ano”, conta.

A empreendedora também comentou que, depois da pandemia, a realidade dos lojistas estabelecidos mudou. Com o crescimento do comércio on-line, as vendas diminuíram. “Atualmente, não é como antes”, declarou.

Marta também se queixa dos impostos e dos encargos sociais, que, segundo ela, se tornaram mais um desafio para quem mantém um estabelecimento comercial.

Ao longo de toda a trajetória, Marta relata ter tido a sorte de contar com boas funcionárias, o que lhe permite se ausentar do estabelecimento com tranquilidade, pois considera suas colaboradoras responsáveis e confiáveis. Feliz, apresentou Kauany Cabral e Júlia Cardoso, que atualmente fazem parte da equipe.

Segundo Marta, às vezes pensa em parar, mas logo reconhece que não consegue se imaginar longe do comércio. “Não consigo me imaginar sem isso aqui. Gosto de ser comerciante!”, afirmou.

Perguntei, então, sobre o lazer. Ela abriu um sorriso e respondeu: “Gosto de viajar. Tô sempre com o pé na estrada”.

Ao final da conversa, Marta fez questão de destacar sua fé. Disse ser evangélica há 25 anos e concluiu afirmando que Deus tem lhe dado forças para superar os momentos difíceis da vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

DE VENDEDOR DE PIPOCA E PICOLÉ A JUIZ: Robson, o vencedor

 



Do site Novo Mundo

Robson José dos Santos cresceu na periferia do Recife e começou a trabalhar ainda adolescente, vendendo pipoca nos ônibus e picolé em feiras para ajudar nas despesas da família. Filho de um gari e de uma auxiliar de enfermagem, estudou em escola pública e passou por diferentes profissões, incluindo guarda municipal, bombeiro militar e policial civil.


Aos 31 anos, entrou na faculdade de Direito com bolsa do ProUni. Depois disso, enfrentou uma verdadeira maratona de provas: prestou mais de 70 concursos públicos, incluindo 18 para a magistratura.


Foram cerca de 12 anos de tentativas até conseguir a aprovação para juiz de Direito em Rondônia. Aos 46 anos, tomou posse no cargo pelo qual havia passado anos se preparando.