quarta-feira, 28 de outubro de 2026

RAQUEL TERRA : uma mulher de posição, que acredita nas pessoas e ama o que faz

 

O Espaço de Reflexão teve uma prosa interessante com uma mulher tavarense, cuja postura cidadã, inteligência, ética  e participação política a leva a ocupar uma posição de destaque na história das últimas décadas de Tavares. 

A entrevista foi com Raquel Terra. Comecei solicitando que dissesse quem é a Raquel. 

Então, começou:


"Sou a Raquel Terra, vereadora de Tavares, e estou no meu quarto mandato consecutivo pelo Progressistas, partido que escolhi e pelo qual tenho muito orgulho de trabalhar.


Sempre fui uma mulher de posição e posicionamento. Nunca tive medo de defender aquilo em que acredito e, quando acho que alguma coisa precisa ser dita, eu digo. Claro que nem sempre vamos agradar a todos, mas, pra mim, o mais importante é ter a consciência tranquila, agir com verdade e não abrir mão dos meus princípios".

Raquel é uma pessoa boa na comunicação, como se diz no linguajar popular, não se enreda com as palavras. As vezes se antecipava com as minhas perguntas,  parecia adivinhar o que eu iria perguntar. Foi fácil a entrevistar. 

No decorrer do diálogo, ela como mulher política fala:

"Acredito na boa política, naquela que faz a diferença na vida das pessoas, que tem compromisso de verdade com a comunidade e que não fica só no discurso.


Nunca me defini como feminista, mas sempre acreditei que o lugar da mulher é onde ela quiser estar. Nós temos capacidade, força e competência para ocupar qualquer espaço, inclusive os de decisão. E isso, pra mim, é algo que carrego comigo desde sempre.


Venho de uma família em que as mulheres são exemplos de força, coragem e trabalho. Minha mãe, Terezinha, e minha irmã, Silvia, são grandes referências pra mim. Acho que esse jeito de enfrentar a vida, de não desistir diante das dificuldades e de correr atrás do que queremos também faz parte do meu DNA".

Raquel é uma mulher feliz com seu estilo de vida, estar com as pessoas e podendo fazer algo para que as pessoas também se sintam ou venha se sentir melhor.

Como ela mesmo diz:


"Mas, acima de qualquer cargo ou posição, eu gosto mesmo é de gente. Gosto de estar perto, de conversar, de ouvir, de participar e de conhecer a realidade de cada um. Tavares tem muita coisa boa, mas o que temos de mais valioso são as pessoas, nossa comunidade e a força de quem trabalha todos os dias para fazer esse município crescer".


PEDI QUE FALASSE DE SUA FAMÍLIA 


Sou filha da Terezinha e do Golberi, irmã da Silvia, e nasci em Rio Grande, onde vivi até os meus 19 anos. Foi lá que comecei minha vida profissional. Meu primeiro emprego foi em uma videolocadora (acredito que os jovens nem saibam o que é isso hoje, kkk), depois, trabalhei na área comercial da RBS TV e, mais tarde, na FIAT Sbardecar, em Porto Alegre.


Cada experiência me ensinou alguma coisa, me trouxe aprendizados e me ajudou a formar a pessoa que sou hoje".

Raquel gosta de viver experiências novas e se lançar a desafios. 

Segundo ela, "sempre gostei de desafios e de viver coisas novas. Foi assim que resolvi morar em Portugal, onde fiquei por cerca de dois anos e tive a oportunidade de conhecer muitos lugares e outras culturas. Foi uma experiência que me ensinou bastante sobre a vida, sobre as pessoas e sobre o que significa estar longe de casa".

Mas, nem tudo foi maravilha em sua trajetória, teve também situações complicadas, pois:


"Depois de uma tragédia na família, voltei para o Brasil e vim para Tavares para dar apoio à minha irmã, que havia ficado viúva e estava grávida. Naquele momento, eu não imaginava que minha vida tomaria um rumo tão diferente".

Raquel diante das incertezas que é o futuro,  de repente, larga tudo em Portugal e retorna para Tavares,  devido às circunstâncias da vida e, talvez,  o destino, para quem acredita que ele existe. 


A prosa anda e ela afirma, 

"foi aqui que conheci o Paulo Costa, o nosso Nidão, e, em menos de um ano, estávamos casados.


Já são quase 25 anos de casamento, de parceria, de trabalho e de construção de uma família. Somos diferentes em muita coisa, mas construímos nossa história juntos, sempre ligados às nossas raízes e à realidade do interior.


E, quando falo da minha caminhada, não posso deixar de falar no Paulo, e da importância de ter ele ao meu lado um marido companheiro, incentivador e parceiro de verdade. Daqueles que não precisam estar na frente para mostrar o seu valor, que não se incomodam em ver a mulher crescer, ocupar espaços e conquistar seu lugar. Pelo contrário, sempre me incentivou e nunca teve problema nenhum em me deixar brilhar, em deixar a Raquel, a vereadora, estar à frente quando era a minha vez.


Por isso, deixo aqui, publicamente, o meu muito obrigada! Obrigada, Paulo, por acreditar em mim, por me apoiar, por respeitar meu espaço e por caminhar ao meu lado. Porque ninguém constrói uma trajetória sozinho.


Nesta altura da entrevista, perguntei como foi interromper um estilo de vida na Europa e vir para o meio rural de Tavares. Daí relatou que

"o trabalho com a agricultura e a pecuária faz parte da nossa vida, assim como faz parte da realidade de tantas famílias de Tavares. E tem uma coisa que muita gente talvez não saiba, ou até duvide: desde o começo do meu casamento, sempre ajudei o Paulo na plantação de cebolas. Sim, eu também sou da lida! Sou uma baita apanhadora de cebolinho!


Quem me conhece sabe que eu nunca tive medo de trabalho. Sempre acreditei que é com dedicação, honestidade e muito esforço que a gente consegue conquistar as coisas e prosperar".


UMA VIDA DE TRABALHO ANTES DA POLÍTICA 


Raquel explica sua trajetória antes de se tornar política, se eleger vereadora, "retornei para Tavares, fui construindo minha vida profissional por aqui. Trabalhei como diretora da então creche da Vila 12 de Maio e tenho muito orgulho de lembrar que foi durante a minha gestão que ela foi aberta.


Depois, trabalhei no Gordo Comércio Rural, onde também ajudava nas atividades do CTG Galpão dos Carreteiros, do qual ele era patrão, e nas demandas do PSDB, partido ao qual pertencia o então vice-prefeito.


Também trabalhei por um bom tempo na CDL, a Associação Comercial, e passei pelo Mercado RB, do saudoso e querido amigo Bacana.


Outra experiência que marcou minha caminhada foi o trabalho de digitação de estágios para acadêmicos de Pedagogia da Ulbra. Cheguei a digitar, ao mesmo tempo, 26 trabalhos, com aproximadamente 80 páginas cada um. Quem vê a quantidade de trabalho que já enfrentei entende por que eu digo que disposição nunca me faltou"!


E, volta a lembrar do Paulo:

"Em meio a tudo isso, seguia ajudando o Paulo na plantação de cebolas. Minha vida sempre foi assim: trabalho, família, compromissos e muita disposição para fazer acontecer".


Raquel também e servidora pública municipal e, atualmente, está licenciada para exercer meu mandato como vereadora. "Olho para essa caminhada e vejo que cada experiência teve sua importância."


Como e quando a Raquel entrou para a política? Respondeu:


"Foi em Tavares que a política entrou de vez na minha vida. Meu envolvimento com a comunidade e com o partido foi crescendo, até que resolvi colocar meu nome à disposição para concorrer a vereadora.


Na primeira vez, em 2008, concorri pelo PSDB e fiquei como primeira suplente. Não foi dessa vez que conquistei uma cadeira, mas aquela experiência não me fez desistir. Em 2012, voltei a concorrer, já pelo Progressistas, e fui eleita. A partir dali, começou uma caminhada que já soma quatro mandatos consecutivos.


- 2008: 111 votos — 1º suplente pelo PSDB.

- 2012: 240 votos — eleita, 5º lugar.

- 2016: 414 votos — eleita, 2º lugar.

- 2020: 316 votos — eleita, 1º lugar.

- 2024: 305 votos — eleita, 2º lugar.


Tenho muito orgulho dessa trajetória, não apenas pelos números, mas principalmente pela confiança que as pessoas depositaram em mim. Cada voto representa alguém que acreditou no meu trabalho, e isso é uma responsabilidade que levo muito a sério.


Quem me conhece sabe que eu não sou de desistir fácil. Sempre procurei fazer política com verdade, transparência e coragem para defender minhas posições".


Em 2025, Raquel depois de 12 anos de caminhada no Legislativo, teve a honra de assumir a presidência da Câmara de Vereadores. Segundo ela "foi uma conquista muito especial, que chegou no seu tempo e representou mais uma etapa de responsabilidade e trabalho".


Como mulher dedicada, sempre que assume uma função é  com compromisso de fazer o melhor, disse que "procurei exercer essa função com seriedade, respeitando a instituição e entendendo que ocupar um cargo como esse exige compromisso, equilíbrio e disposição para fazer o que precisa ser feito. Para mim, é mais uma oportunidade de contribuir com Tavares e com a comunidade que me trouxe até aqui. E confesso que, depois de tantos anos, Deus é um grande roteirista!!! 

"A presidência chegou no momento certo: a Raquel mais madura, centrada e que aprendeu a ser moderada".


Mas,  Raquel é uma mulher que procura conciliar trabalho,  política e família. Vai e vem nos relatos e ela volta a lembrar da família. A seguir fala de algo muito sensível para uma mulher.


"Se a política trouxe muitos aprendizados e desafios para a minha vida, a maternidade me transformou de um jeito que eu nem consigo explicar.


Em 2010, nasceu a Júlia Terra, minha única filha e meu maior presente. Com ela, nasceu também uma nova mulher em mim. Ganhei um dos papéis mais importantes da minha vida: o de mãe!!! E sempre digo que esse foi, sem dúvida, o melhor projeto que já tive.


A Júlia mudou meu jeito de enxergar muitas coisas. Ser mãe me trouxe novos sentimentos, novas responsabilidades e uma vontade ainda maior de fazer o meu melhor, não só por mim, mas também por ela.


"Quero que minha filha tenha orgulho da mulher que sou, das escolhas que fiz e da maneira como procuro conduzir minha vida. Quero que ela saiba que a gente pode sonhar, trabalhar, lutar pelo que acredita e ocupar os espaços que quiser, sem precisar deixar de ser quem é."


"Acima de tudo, quero que ela entenda o valor da honestidade, do trabalho, da família e do respeito pelas pessoas", conlui.


Raquel tem orgulho de seu passado quando afirma que "quando olho para trás, vejo uma caminhada com muitas experiências, desafios, mudanças e aprendizados. Saí de Rio Grande, morei em Portugal, voltei ao Brasil, construí minha família em Tavares, trabalhei em diferentes áreas e encontrei na política uma forma de continuar contribuindo com a comunidade.


"Sigo sendo essa mulher de personalidade forte, que gosta de gente, de família, de estar junto, de trabalhar e de fazer acontecer. Tenho minhas convicções, minhas qualidades e também meus defeitos, como todo mundo. Não tenho a pretensão de agradar a todos, mas faço questão de agir com verdade e de olhar para as pessoas com respeito".


A mulher, esposa, mãe e vereadora é grata a população tavarense, pois, segundo ela "foi aqui que construí minha família, minha trajetória política e tantas amizades que levo comigo. É aqui que estão minhas raízes e tantas pessoas que fazem parte da minha vida".


Como política "continuo acreditando que a política vale a pena quando a gente está perto das pessoas, escuta suas necessidades, conhece sua realidade e trabalha para encontrar caminhos. Não acredito em política feita apenas de palavras, mas naquela que se mostra nas atitudes, no compromisso e na presença", reafirma. 


Portanto, no fim da entrevista, Raquel finaliza dizendo, 

"essa sou eu: Uma pessoa que tem suas convicções, que não tem medo de se posicionar e que continua aprendendo todos os dias."

Mas, antes de encerrarmos, fiz a ela mais uma pergunta: Raquel, você tem a pretensão ou o sonho de ser prefeita de Tavares?

Raquel respondeu que chegar à Prefeitura não depende apenas da vontade pessoal. Há todo um processo a ser construído: é necessário que o partido faça essa escolha e, sobretudo, que a comunidade queira, pois é ela quem escolhe seus representantes e para quem o prefeito trabalha. “Eu, com a bagagem de experiência adquirida no Legislativo, claro, me sinto preparada para novos desafios no Executivo. Mas tudo depende de uma construção!”, afirmou.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

LUIS FAUSTINO: pesquisador da ancestralidade quilombola e guardião da memória de seu povo


A trajetória desse pesquisador da cultura quilombola revela que o conhecimento não se constrói apenas nos bancos escolares, mas também por meio das experiências, das vivências e das lições que a própria vida ensina. Embora tenha frequentado a escola formal até a quinta série, encontrou na chamada "faculdade da vida" um vasto campo de aprendizagens, que hoje se transforma em conhecimento compartilhado.


Pesquisador da ancestralidade afro-brasileira, ele se dedica a ministrar cursos e palestras que resgatam a memória, valorizam a identidade e preservam a história de seu povo. Ao mesmo tempo, promove reflexões sobre os desafios da cidadania das comunidades quilombolas. Sua caminhada demonstra que a educação ultrapassa os limites da sala de aula e que conhecer as próprias raízes também é uma forma de fortalecer identidades, reivindicar direitos e construir caminhos para uma sociedade mais justa e inclusiva.


A introdução acima se refere a Luís Faustino Lopes da Silva,de 50 anos, tavarense, nascido e criado no Beco da Fumaça, na localidade de Capororocas. Mais conhecido como Faustino, ele vive em uma região cuja identidade histórica está vinculada ao Quilombo Vovó Virgilino. É, sobretudo, sobre essa história, a ancestralidade de seu povo e as lutas da comunidade que trata a entrevista concedida ao Espaço de Reflexão.


A HISTÓRIA DO QUILOMBO VOVÓ VIRGILINO


No primeiro momento da conversa, quis saber como a comunidade do Beco da Fumaça se transformou em um quilombo legalmente reconhecido.


Faustino explica que a comunidade de Casca, localizada em Mostardas, foi a primeira do Rio Grande do Sul a receber esse reconhecimento, há cerca de 30 anos, após pesquisas da Fundação Cultural Palmares.


Em Tavares, segundo ele, os estudos começaram aproximadamente entre 1998 e 1999. As pesquisas apontaram que Vovó Virgilino, seu ancestral, teria vindo da África em um navio negreiro. Após desembarcar no Rio de Janeiro, seguiu para Pelotas e, posteriormente, para Mostardas, onde teria chegado pela praia e se refugiado no Mato da Costa. No decorrer dessa trajetória, acabou chegando à região de Tavares.


De acordo com Faustino, os estudos realizados pela Fundação Cultural Palmares identificaram os descendentes de Virgilino como remanescentes de povos submetidos à escravidão, condição que possibilitou o reconhecimento da comunidade como quilombola.


Perguntei se, no início das pesquisas, os moradores compreendiam do que se tratava o estudo e que possibilidade existia de a comunidade vir a ser reconhecida como quilombo.


Faustino explicou que, inicialmente, muitos moradores desconheciam o significado daquelas pesquisas e sentiam medo e receio diante da situação.


“Os povos negros já tinham uma história de exclusão e desprezo, sendo vistos como seres sem direitos. Quando alguém chega fazendo uma pesquisa, logo vem o pensamento: no que isso vai resultar?”, relata.


Por volta do ano 2000, segundo ele, veio o resultado indicando a possibilidade de reconhecimento da comunidade do Beco da Fumaça como quilombo, incluindo as pessoas que comprovassem sua descendência de Virgilino.


SER QUILOMBOLA É SUJEITO DE DIREITOS


Mas, afinal, o que significa pertencer a uma comunidade quilombola? E quais possibilidades esse reconhecimento pode proporcionar aos moradores?


Conforme Faustino, tudo aquilo era novidade para a comunidade. No início, havia dúvidas e dificuldades para compreender o significado e as consequências daquele processo. Aos poucos, porém, os moradores passaram a entender melhor a importância do reconhecimento.


“Ser quilombola é ser sujeito de direitos, fortalecer as comunidades, conseguir emendas parlamentares para políticas públicas de saúde e agricultura, inserir-se em programas de moradia, ter acesso às universidades e conquistar espaço de voz”, explica Faustino.


Atualmente, a comunidade quilombola Vó Virgilino conta com uma associação composta por 55 sócios, presidida por Luiz Faustino. Segundo ele, cinco integrantes da comunidade são bolsistas em universidades, um resultado que representa novas oportunidades de acesso à educação e de construção de perspectivas para as novas gerações.


A MEMÓRIA DOS ANCESTRAIS


O interesse de Faustino pela história de sua ancestralidade nasceu também das lembranças transmitidas por seus familiares.


Ele recorda que sua avó Josina, que morava em Mostardas, costumava falar sobre o sofrimento enfrentado por seu povo. Também menciona a história de seu avô Talíbio, que vivia no Rincão do Cristóvão Pereira.


Ao recordar a trajetória familiar, Faustino conta que a mãe de seu avô era filha de um filho de seu patrão. Segundo ele, essa circunstância ajuda a compreender por que alguns descendentes dessa linhagem não apresentam a pele negra.


São histórias familiares que atravessam gerações e ajudam a compreender as relações sociais, as experiências de violência e as marcas deixadas pela escravidão na formação das comunidades negras da região.


DA CURIOSIDADE À PESQUISA SOCIAL 


O interesse pela história de seus antepassados levou Faustino a aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura afro-brasileira. Mesmo sem uma longa trajetória escolar, tornou-se um pesquisador social reconhecido por seu trabalho de valorização da ancestralidade quilombola.


Ao longo de sua caminhada, ministrou cursos e palestras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em atividades coordenadas pela professora Alba, e também compartilhou seus conhecimentos na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Além disso, realizou trabalhos em escolas de Cachoeira do Sul, levando aos estudantes reflexões sobre a história e a cultura de seu povo.


Para Faustino, a luta pelo reconhecimento e pela valorização da cultura quilombola é permanente. “A luta é uma caminhada”, lembra.


Quando sai de Tavares para participar de palestras e atividades culturais, ele faz questão de levar consigo o nome do município, divulgando a história e as manifestações culturais de sua terra.


Entre essas manifestações, destaca-se o Ensaio de Pagamento de Promessa, expressão religiosa tradicional que preserva elementos da história e da identidade das comunidades negras rurais da região.


O ENSAIO DE PAGAMENTO DE PROMESSA: FÉ  E ANCESTRALIDADE 

Faustino explica que o Ensaio de Pagamento de Promessa está relacionado à religiosidade católica dos povos negros do meio rural, em um período no qual havia pouca presença de padres nessas localidades. Segundo ele, os negros enfrentavam situações de repressão e, muitas vezes, eram impedidos de expressar livremente sua fé.


O pesquisador também menciona o ensaio conduzido pela família de Arlindo, destacando a importância do tambor como instrumento de ancestralidade e o papel das curandeiras em uma época na qual o acesso aos médicos era limitado.


Conforme relata, as promessas eram feitas por diferentes motivos: uma boa colheita, a cura de uma doença, o nascimento de uma criança ou o sucesso de um parto realizado por uma parteira. Essas práticas expressavam a fé e a devoção a Nossa Senhora.


“Isso tudo começou no mato, quando existia a escravidão. Os cânticos contam a história dos negros desde a África até o Brasil”, relata Faustino.


Mais do que uma manifestação religiosa, o Ensaio de Pagamento de Promessa representa, em sua compreensão, uma forma de preservar a memória coletiva. Por meio dos cantos, dos tambores e dos rituais, conhecimentos e tradições são transmitidos entre as gerações, mantendo viva uma parte significativa da história cultural da região.


APRENDIZAGENS QUE VÊM DA VIDA


Perguntei a Faustino quando havia começado seu interesse por essa história. Ele contou que iniciou seus estudos em Mostardas há aproximadamente 30 anos e que aprendeu muito com Horlando Cardoso Duarte, dançante de Ensaio e Rei do Congo.


A partir dessas experiências, Faustino ampliou seus conhecimentos e passou a desenvolver atividades voltadas à valorização da cultura afro-brasileira e das tradições quilombolas.


Durante dois anos, trabalhou na Escola Izabel Cristina, em Tavares, desenvolvendo atividades relacionadas à culinária africana, oficinas de artesanato, preparação de chás caseiros e estudos sobre ancestralidade.


Seu trabalho também se estende às novas gerações. Atualmente, mantém o Grupo Quicumbi, formado por oito adolescentes que integram um grupo de tambores. Além disso, possui um contrato com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Tavares, onde desenvolve oficinas culturais envolvendo a prática dos tambores.


Essas iniciativas demonstram como a cultura pode ser um instrumento de aprendizagem, integração social e valorização das identidades. Ao aproximar os jovens das tradições de seus antepassados, Faustino contribui para que esse patrimônio cultural continue vivo e encontre espaço no presente.


O pesquisador também relata ter participado de entrevistas relacionadas a trabalhos desenvolvidos por uma universidade de Porto Alegre. Embora seja considerado autodidata, buscou ampliar sua formação e, há cerca de seis anos, realizou um curso de Turismo Rural.


PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL 


Ao final da entrevista, Faustino fez questão de destacar o significado que esse trabalho tem em sua vida. Sua trajetória é marcada pela busca do conhecimento, pelo envolvimento com a comunidade e pela disposição de compartilhar aquilo que aprendeu ao longo dos anos.


Sua história mostra que a formação de uma pessoa não se limita aos anos de escolarização. As experiências, a escuta dos mais velhos, a pesquisa, a convivência comunitária e o contato com diferentes espaços de aprendizagem também podem produzir conhecimentos importantes para a sociedade.


A caminhada de Luiz Faustino Lopes da Silva ajuda a compreender que preservar a ancestralidade não significa apenas olhar para o passado. Significa reconhecer as origens, compreender as marcas da história, valorizar a identidade coletiva e contribuir para que as novas gerações conheçam suas raízes.


Alegre e satisfeito com o caminho percorrido, Faustino resume sua motivação em palavras que expressam seu compromisso com a comunidade: "Gosto do envolvimento social, da participação e do protagonismo".


É nesse compromisso que sua história ganha significado: na transformação do conhecimento adquirido ao longo da vida em uma ferramenta de valorização cultural, reconhecimento de direitos e fortalecimento da identidade quilombola de Tavares.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

DENILSON FERREIRA: a trajetória de um homem do agro, marcada pelo trabalho, pela fé e família

 

O *Espaço de Reflexão* recebeu a visita de um produtor rural que deixou seus afazeres no campo e se deslocou até minha residência para uma boa prosa sobre sua história de vida e sua trajetória no agronegócio. Como não poderia deixar de ser, nossa conversa foi além da produção e da economia rural. Falamos também sobre família, fé e os valores que orientam sua caminhada.


O entrevistado foi Denilson Lemos Ferreira, tavarense da localidade da Barrosa, de 55 anos, casado com Jaqueline Antunes Ferreira e pai de Dhuliane e Jonatas.


Começamos nossa prosa falando sobre o trabalho, uma presença constante em sua vida desde muito cedo. Segundo Denilson, sua família já trabalhava com o cultivo de cebola e arroz, além da criação de gado. Ainda menino, aos 12 ou 13 anos, saía da escola e ia direto para o trator, como ele próprio recordou: “Chegava da escola e ia para cima do trator”. Ao relembrar aquele período, resumiu sua experiência com uma frase significativa: “Minha adolescência aconteceu no trabalho”.


Denilson estudou até a quinta série na escola rural de sua comunidade,  depois cursou o antigo primeiro grau na Escola Marcelo Gama,  Mostardas, e Escola Edgardo, em Tavares. Depois, foi no cotidiano do trabalho que construiu grande parte de seus conhecimentos. Se existe um título que a experiência lhe concedeu, é o de especialista na prática da administração rural, conhecendo de perto os desafios e as particularidades das atividades que desenvolve, especialmente o cultivo de arroz e a criação de gado.

UMA TRAJETÓRIA CONSTRUÍDA COM AS PRÓPRIAS MÃOS 

A caminhada profissional de Denilson, de forma independente do pai, começou na Granja Vargas, em Palmares do Sul, onde cultivou arroz durante dois anos. Depois, retornou a Tavares e deu continuidade à atividade, inicialmente arrendando terras e, posteriormente, adquirindo propriedades.


Hoje, possui bastante terra, distribuídos em muitas propriedades. Sua trajetória no agronegócio por conta própria começou há cerca de 25 anos. Atualmente, sem considerar a Fazenda Guaritas, Denilson se destaca como o maior produtor de arroz de Tavares.


Ao longo desse período, já chegou a cultivar aproximadamente 350 quadras de arroz. Atualmente, a área plantada corresponde a cerca de 200 quadras.


Segundo ele, os negócios vêm crescendo ao longo dos anos. Entretanto, o produtor sabe que a atividade rural está sujeita às oscilações do mercado, às variações da produção e às mudanças nos preços. Em determinados períodos, a oferta elevada e a retração do mercado podem reduzir a rentabilidade.


Com a experiência adquirida ao longo dos anos, aprendeu a lidar com essas dificuldades. “Já sabe que a agricultura é assim, então, nos anos bons, sempre procura fazer reserva para os anos ruins”, explicou.


Denilson também destacou que procura evitar compras e investimentos baseados na expectativa de ganhos futuros, pois entende que os resultados dependem tanto da colheita quanto das condições do mercado. É uma maneira de administrar os negócios com cautela, considerando os riscos próprios da atividade agrícola.

A FORÇA DA PECUÁRIA E OS INVESTIMENTOS NA QUALIDADE 

Além da lavoura de arroz, Denilson mantém uma expressiva atividade na pecuária. Tem considerável rebanho bovino, com produção voltada à comercialização de animais jovens, especialmente terneiros.


O produtor ressaltou que procura investir na qualidade do rebanho. Como exemplo, contou que adquiriu recentemente seis touros, em um investimento de R$ 180 mil.


Perguntei qual das duas atividades proporcionava maior retorno financeiro: o arroz ou o gado. Refletindo sobre a questão, explicou que a pecuária oferece uma vantagem em determinadas situações, pois, mesmo quando a lavoura enfrenta dificuldades, o gado não sofre necessariamente as mesmas consequências. No entanto, segundo ele, o maior lucro costuma vir da lavoura de arroz, em razão do grande volume de produção.

A TECNOLOGIA TRANSFORMOU O TRABALHO NO CAMPO 

Ao longo de aproximadamente 25 anos como produtor de arroz, Denilson acompanhou mudanças significativas na tecnologia utilizada no campo. Lembrou, por exemplo, da evolução dos tratores antigos, sem cabines ou toldos, para os modelos atuais, equipados com ar-condicionado e mais conforto para quem trabalha.


Perguntei se já havia pensado em introduzir drones nas atividades agrícolas. Ele respondeu que não, pois essa alternativa também envolve questões relacionadas à mão de obra, cuja disponibilidade considera um dos desafios do setor. Em sua propriedade, conta com duas pistas de aterrissagem para aeronaves e contrata serviços especializados quando necessário.


Sobre a mão de obra, explicou que, durante os períodos de maior movimento na lavoura, utiliza até dez trabalhadores. Para os cuidados com a pecuária, conta com duas pessoas. Nesse aspecto, destacou que está cada vez mais difícil encontrar trabalhadores disponíveis para as atividades que desenvolve.

TRABALHO, PERSEVERANÇA E FÉ 

Em determinado momento da conversa, perguntei a Denilson se, quando iniciou sua trajetória independente, há cerca de 25 anos, imaginava alcançar o crescimento que conquistou.


A resposta foi direta: “Não imaginava crescer tanto”.


Ele atribui parte dessa conquista ao esforço e à dedicação ao trabalho. Contou que há períodos em que trabalha praticamente sem parar, durante o dia e a noite, sem distinguir domingos, feriados ou dias de festa. Sua rotina exige presença constante e disposição para enfrentar as demandas do campo.


Entretanto, ao falar sobre os resultados alcançados, fez questão de reconhecer algo que considera fundamental em sua vida: a fé.


“Não posso esquecer que Deus tem me ajudado bastante”, afirmou.


Denilson e sua esposa são evangélicos. Segundo ele, desde que passou a seguir uma vida orientada pela fé, percebeu que seus negócios começaram a dar certo. Ao falar sobre as conquistas pessoais e profissionais, expressou sua gratidão: “Sou grato a Deus por tudo de bom que tem acontecido comigo e minha família”.


Sua fala revela que, para além do esforço diário e das decisões relacionadas aos negócios, a espiritualidade ocupa um lugar importante na maneira como compreende sua trajetória.

A FAMÍLIA COMO PARCEIRA NA CAMINHADA 

Quando o assunto foi a família, Denilson destacou o papel da esposa, Jaqueline, na construção e na administração dos empreendimentos familiares.


Segundo ele, ela é uma parceira importante nos negócios, especialmente na gestão das compras e no pagamento dos funcionários. Essa participação demonstra que, por trás da atividade rural, existe também uma organização familiar que contribui para o funcionamento e a continuidade dos empreendimentos.


A família, portanto, não aparece apenas como parte de sua vida pessoal, mas também como presença significativa na administração dos negócios e na sustentação de sua caminhada profissional.

DENILSON NA POLÍTICA: SIM OU NÃO?

Para concluir nossa conversa, perguntei se Denilson já havia pensado em ingressar na política ou se alguém havia tentado convencê-lo a disputar um cargo no Executivo ou no Legislativo municipal.


Ele confessou que já recebeu convites e propostas, mas sua escolha sempre foi dedicar-se ao trabalho no campo.


Neste momento da vida, considera que ingressar na política talvez não seja a melhor opção para seus planos. Explicou que pretende, aos poucos, desacelerar o ritmo intenso de trabalho que marcou sua trajetória. Na sua avaliação, a atividade política exigiria um envolvimento que poderia reduzir ainda mais o tempo disponível para a família.


Assim, sua preferência é continuar concentrado naquilo que construiu ao longo dos anos, procurando equilibrar os compromissos profissionais com a vida familiar.

UMA HISTÓRIA QUE VAI ALÉM DA PRODUÇÃO RURAL 

A conversa com Denilson Lemos Ferreira revela a trajetória de um homem que começou a trabalhar ainda na adolescência e construiu sua vida profissional com dedicação, experiência e persistência. Da rotina na lavoura, quando ainda era menino, à administração de mais de mil hectares de terras e de um expressivo rebanho bovino, sua história acompanha as transformações e os desafios do agronegócio.


Mas sua caminhada não se resume aos números da produção, às propriedades ou aos investimentos realizados. O trabalho, a família e a fé aparecem como elementos fundamentais na maneira como ele interpreta suas conquistas e projeta o futuro.


Ao abrir espaço para essa conversa, o *Espaço de Reflexão* reafirma seu propósito de ouvir as pessoas e conhecer suas histórias. Afinal, por trás de cada atividade econômica, existe uma trajetória humana, construída por escolhas, desafios, aprendizados e valores que merecem ser conhecidos e compartilhados.

sábado, 24 de outubro de 2026

E DAÍ, VOCÊ QUER VER A SUA HISTÓRIA AQUI?



O processo começa com uma prosa, são anotados os assuntos,  depois montado o texto e enviado ao ventrevistado, ele dá ok ou solicita modificações ou inclusão de algo. Daí sai a versão final...é um texto escrito com a participação do entrevistado. Não há gravação. 

Contato wathes 51992113343

 


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DIEGO PAIVA: a limitação física não impediu a alegria de viver nem a vontade de seguir em frente




Há pessoas que, mesmo diante dos imprevistos que a vida lhes apresenta, encontram forças para seguir em frente sem perder a esperança e abrir mãos dos sonhos. Alto-astral, cheio de planos para os próximos anos e com a vontade de viver estampada no rosto, o jovem desta entrevista teve parte de seus projetos interrompida pelas circunstâncias, precisando mudar hábitos, adaptar-se a uma nova realidade e reaprender muitas coisas. A vida passou a exigir dele outros caminhos, novas perspectivas e uma capacidade de superação que talvez nem imaginasse possuir. Com resiliência e determinação, porém, compreendeu que nem sempre é possível escolher os desafios que surgem pelo caminho, mas é possível encontrar maneiras de enfrentá-los. Hoje, vivendo de forma diferente daquela que conhecia, ele demonstra que os imprevistos podem mudar os rumos da caminhada, mas não precisam apagar a alegria de viver nem a esperança de construir um futuro feliz.


Diego da Costa Paiva, ou simplesmente Diego Paiva, é um jovem cuja trajetória poderia ter sido marcada pelo desânimo e pelo isolamento após uma mudança radical em sua vida. No entanto, mesmo tendo se tornado paraplégico há 11 anos, ele mantém o alto-astral e conta sua história com tranquilidade, demonstrando que aprendeu a conviver com a nova realidade sem abrir mão da independência, dos projetos e da alegria de viver.


A entrevista foi marcada com uma expectativa que persistia em minha mente: quem é Diego Paiva hoje? A resposta começou a se delinear à medida que a prosa avançava. Diante de mim, estava um jovem cuja condição física não limitava sua maneira de pensar, seus planos ou sua disposição para a vida.


Aos 37 anos, natural de Tavares, Diego cursou a educação básica na Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho. Sua trajetória profissional começou a ganhar novos rumos em 2007, quando decidiu sair do município em busca de oportunidades.


Ele conta que foi para Gravataí, onde trabalhou por aproximadamente dois anos em uma empresa terceirizada da General Motors (GM). Como não enxergava possibilidades de crescimento profissional, decidiu deixar o emprego e retornar a Tavares. De volta ao município, trabalhou na Sul Pínus por cerca de dois anos. Ainda em busca de melhores perspectivas, partiu para Rio Grande.


Na cidade portuária, começou a distribuir currículos em busca de uma oportunidade de trabalho. Foi durante essa caminhada que surgiu uma possibilidade inesperada, a partir de um encontro casual.


Diego relata que, já no final de uma jornada de entrega de currículos, na região do porto, um senhor lhe ofereceu carona até o centro da cidade. Ao perceber que o jovem ainda carregava alguns currículos, comentou que também havia passado por aquela experiência quando era novo. O homem contou que possuía uma pequena empresa de conserto de embarcações e perguntou se Diego gostaria de trabalhar com ele.


No dia seguinte, Diego foi até o local e começou a trabalhar no almoxarifado. Uma semana depois, foi chamado para uma entrevista em uma empresa do porto. Havia dez candidatos disputando três vagas. Ao perceber que outros concorrentes estavam em situação de maior necessidade, decidiu desistir do processo seletivo e permanecer no emprego que já havia conseguido.


Posteriormente, participou de outra seleção, na qual foi aprovado. Dessa vez, encontrou uma oportunidade mais próxima daquilo que procurava profissionalmente.


O crescimento foi rápido. Em apenas cinco meses, recebeu uma promoção e, com um ano veio a segunda promoção. 


Entretanto, o cenário econômico mudou. Entre 2014 e 2015, a crise atingiu os empreendimentos do polo naval. Segundo Diego, os trabalhadores receberam férias coletivas, com a expectativa de retornar ao trabalho alguns dias depois. Mas a situação se agravou: de aproximadamente mil funcionários, restaram menos de cem. Diego permaneceu entre eles.


O ACIDENTE QUE MUDOU OS RUMOS DA CAMINHADA


Certa noite, por volta da meia-noite, Diego retornava de moto da casa da namorada quando sofreu o acidente que mudaria sua vida. Ao passar por um desnível na pista, perdeu o controle da motocicleta, que tombou, arremessando-o para longe.


Ao relatar o ocorrido, ele foi enfático: “o problema todo foi o desnível”.


Perguntei se havia ingerido bebida alcoólica. A resposta foi direta: “não”! Também quis saber se estava em alta velocidade. Ele esclareceu que não vinha tão devagar, "mais ou menos 50 km/h, acelerou para tentar passar antes de fechar a sinaleira".

"Mas se não tivesse o desnível não teria caído", repetiu.

Ainda no local do acidente, ao tentar se levantar, percebeu que algo grave havia acontecido: não conseguia movimentar as pernas. Mototaxistas que estavam nas proximidades acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Apesar da gravidade da situação, Diego conta que conseguiu manter a calma.


No hospital, recebeu a notícia de que havia fraturado duas vértebras da coluna. Permaneceu aproximadamente 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Rio Grande, antes de retornar para casa.


A partir daquele momento, começou um processo profundo de transformação. A nova realidade se impunha, e era necessário aprender a conviver com ela.


Diego sempre havia sido independente. De repente, passou a depender da ajuda de outras pessoas para realizar atividades cotidianas. A própria casa não oferecia a estrutura necessária para atender às suas novas necessidades. Até mesmo o banho exigia uma logística diferente: ele precisava atravessar a rua e ir até a casa do Zé Terrinha, onde havia um banheiro com espaço maior.


“Foi difícil sim, foi, eu e toda família fomos abalados”, confessa.


A RECONSTRUÇÃO DA VIDA E A CONQUISTA DA INDEPENDÊNCIA 


Aos poucos, segundo Diego, foi reinventando seu estilo de vida. Um dos momentos decisivos desse processo ocorreu quando recebeu a orientação de que deveria buscar atendimento especializado.


O médico que o atendeu em Rio Grande recomendou que procurasse o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência na reabilitação de pessoas com lesões neurológicas e comprometimentos motores.


A consulta foi marcada, mas somente seis meses após o acidente surgiu a oportunidade de viajar. Com o apoio do Estado para custear as despesas de deslocamento e a ajuda de conhecidos, Diego foi a Brasília, onde permaneceu internado durante um mês.


A experiência representou uma mudança significativa em sua trajetória.


“Mudou a minha qualidade de vida, a partir de então”, afirma.


Perguntei o que havia mudado e por quê. Ele explicou que, naquele período, aprendeu a viver na nova realidade e compreendeu que poderia continuar realizando muitas das atividades de antes, desde que adaptasse a maneira de fazê-las.


“É que daí aprendi como viver na nova realidade, que poderia viver como antes, porém de maneira diferente adaptada, hoje nem me vejo como cadeirante”, conclui.


A fala de Diego revela uma compreensão importante: a deficiência física trouxe limitações e exigiu adaptações, mas não eliminou suas possibilidades de construir uma vida ativa e independente.


O PRECONCEITO AINDA É UM DESAFIO 


Ao conversar sobre as dificuldades enfrentadas, Diego aponta o preconceito como um dos principais obstáculos. Para ele, muitas pessoas ainda não compreendem o que significa viver com paraplegia e acabam tratando a pessoa com deficiência de maneira diferente.


No início, ele sentia certo desconforto ao perceber os olhares de admiração ou curiosidade das pessoas. Com o tempo, porém, foi encontrando maneiras de lidar com essas situações e passou a demonstrar, por meio de suas próprias experiências, que a deficiência não define toda a existência de uma pessoa.


Hoje, Diego dirige seu próprio carro adaptado, viaja longas distâncias e organiza sua rotina com autonomia.


“inclusive, não me impede namorar”, diz, com um sorriso "malandro", ao comentar sobre sua vida afetiva. Na sequência, compartilha comigo algumas histórias que, por razões óbvias, não serão publicadas aqui.


O bom humor acompanha a conversa e ajuda a revelar outra dimensão de sua personalidade: Diego não fala apenas sobre superação, mas também sobre a vida cotidiana, os relacionamentos e as experiências que fazem parte de sua existência.


UMA VIDA ATIVA, SEM ABRIR MÃO DOS SONHOS

Já no final da entrevista, dentro de seu carro, em uma fria tarde de primavera sulina, em contexto de El Nino, Diego contou outras experiências que ajudam a compreender o grau de independência que conquistou.


Ele revelou que chegou a ter uma loja em parceria com a mãe, ela se ocupava mais com ela e ele buscava as mercadorias. Contou que costumava viajar sozinho de ônibus para Porto Alegre. Ao chegar à rodoviária, solicitava um carro por aplicativo, seguia até o centro da capital e circulava pela cidade em busca das mercadorias de que precisava para abastecer o estabelecimento. Depois, retornava tranquilamente.

Diego, na pandemia, chegou a trabalhar com a bolsa de valores, comprando e vendendo ações,  por mais de um ano. Até ganhou bom dinheiro, mas resolveu parar com este tipo de atividade econômica, pois ocupava muito seu tempo, às vezes, ficava todo dia envolvido com o negócio,  repensou e chegou a conclusão que precisava usar este tempo para o convívio com a família e os amigos.


A descrição dessas viagens evidencia o quanto aprendeu a reorganizar sua vida, encontrar soluções práticas e superar barreiras que, em outras circunstâncias, poderiam parecer intransponíveis.


“Hoje sou totalmente independente”, afirma, com um sorriso que traduz satisfação e confiança.


A independência conquistada não significa que todas as dificuldades tenham desaparecido. Significa, contudo, que Diego aprendeu a reconhecer suas possibilidades, adaptar-se às circunstâncias e seguir em frente sem permitir que a deficiência se tornasse o centro de sua existência.


A FÉ, A FAMÍLIA  E OS NOVOS PROJETOS 

Diego também fala sobre sua fé em Deus. Católico, demonstra acreditar que a força necessária para enfrentar as adversidades encontra amparo em sua espiritualidade.

Diego, no entanto, fez questão que registrasse um detalhe:

"Minha família e meus amigos de verdade, foram muito importantes na minha recuperação e se hoje estou aqui bem e feliz, foi por ter pessoas incríveis ao meu lado, minha família e amigos que considero da família".

Emociona-se ao falar no apoio do pai, da mãe,  dos irmãos e das sobrinhas que lhe dão muita alegria.

Sua história permite refletir sobre a resiliência humana e sobre a capacidade de reconstruir caminhos mesmo quando a vida apresenta situações inesperadas. A fé, a determinação e o apoio recebido ao longo da trajetória integram essa caminhada de transformação.


Mas Diego não parece disposto a encerrar sua história apenas com as conquistas pessoais. Há novos planos no horizonte.


Já no final da conversa, perguntei por que nunca havia ingressado na política, colocando sua disposição e sua experiência a serviço da comunidade.


Ele respondeu que já havia recebido convites, mas não os aceitara. Agora, entretanto, a possibilidade parece ter ganhado outro significado.


“já me convidaram, mas não aceitei, mas agora na próxima eu vou, sou pré-candidato a vereador”!


A declaração acrescenta um novo capítulo à trajetória de Diego Paiva. Depois de enfrentar uma transformação profunda em sua vida, reconstruir sua rotina e conquistar maior independência, ele demonstra disposição para assumir novos desafios.


A entrevista termina, assim, com a perspectiva de novos projetos. E talvez essa seja uma das características mais marcantes de Diego: a capacidade de olhar para o futuro sem permitir que as dificuldades do passado determinem, por completo, o que ainda está por vir.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

ESCOLA EDGARDO: mais de sete décadas de história, desafios e compromisso com a educação em Tavares

 


Fundada em 1953, a Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho, de Tavares, construiu uma trajetória que se entrelaça com a própria história do município e com as transformações políticas, sociais e culturais do Brasil. "Nascida" nos chamados anos dourados, atravessou o período da ditadura militar e testemunhou o florescimento da democracia, acompanhando diferentes gerações em suas jornadas de aprendizagem e formação cidadã.


Ao longo de mais de sete décadas, a Escola Edgardo consolidou sua importância na comunidade, tornando-se referência na educação e na construção de oportunidades para os jovens. Hoje, como a única escola estadual de Ensino Médio de Tavares, mantém um papel relevante na formação das crianças e adolescentes,  principalmente, reafirmando seu compromisso com o conhecimento, a cidadania e o futuro da sociedade tavarense.


Para conhecer e divulgar a realidade da instituição, o Espaço de Reflexão foi até a escola para conversar com o diretor, professor Dircinei Joel Machado da Costa, e com a supervisora, professora Débora Paiva de Assis Silveira. Durante a entrevista, foram abordados aspectos da gestão, as mudanças ocorridas ao longo dos anos, a estrutura física, os desafios enfrentados e os projetos desenvolvidos pela comunidade escolar.


EQUIPE DIRETIVA E DESAFIOS DA GESTÃO 


Além do diretor Dircinei e da supervisora Débora, integram a equipe diretiva a professora Cristina Gslhardi Costa, vice-diretora do turno da manhã; a professora Aleteia Policarpo Silva, que atua na supervisão e na vice-direção do turno da tarde; e o professor Niltomar Rosca da Silva, supervisor e vice-diretor do turno da noite.


A acumulação de funções por alguns integrantes da equipe está relacionada, segundo as informações apresentadas durante a entrevista, à composição do quadro de profissionais da escola. Como a maioria dos professores é contratada, há limitações para a ocupação de determinados cargos de gestão, que exigem profissionais concursados.


Atualmente, a escola conta com 28 professores, dos quais apenas 09 são concursados. Essa realidade impõe dificuldades à organização da equipe diretiva e à distribuição das responsabilidades entre os turnos.


REDUÇÃO NO NÚMERO DE ALUNOS AO LONHO DOS ANOS


A Escola Edgardo já chegou a ultrapassar a marca de 800 alunos na década de 1990. Quando o diretor Dircinei assumiu a gestão, em 2013, a instituição contava com 660 estudantes. Atualmente, esse número é de aproximadamente 330 alunos.


Os dados revelam uma redução significativa no número de matrículas ao longo das últimas décadas, seguindo uma tendência nas últimas décadas, também,  em outras escolas, visto que o índice de natalidade tem diminuído. E em Tavares o município passou a oferecer Ensino Fundamental completo em sua rede.


Ao recordar o período em que assumiu a direção, há 13 anos, Dircinei destacou as mudanças no perfil dos profissionais da educação.


“Quando assumi, a maioria dos professores era nomeada; hoje, a maioria é contratada”, afirmou.


Segundo o diretor, essa situação dificulta alguns aspectos da gestão, especialmente a ocupação de funções que dependem de profissionais concursados. Ele citou como exemplo a ausência de supervisão no turno da noite, em razão da falta de um servidor concursado disponível para exercer essa função.


A professora Débora observou que, atualmente, a maioria dos professores é de Tavares. Dircinei complementou a informação, destacando que cerca de 90% dos docentes são oriundos da própria Escola Edgardo, ou seja, estudaram na instituição e hoje são profissionais da educação.


Esse dado evidencia a relação construída entre a escola e a comunidade ao longo do tempo, com ex-alunos assumindo o papel de educadores das novas gerações.


TECNOLOGIA E MUDANÇA NA ROTINA ESCOLAR 


Ao ser questionado sobre as principais mudanças percebidas durante seus 13 anos à frente da escola, Dircinei destacou os avanços tecnológicos e as transformações na rotina de trabalho.


Segundo ele, atualmente, grande parte das atividades é realizada por meio de plataformas digitais. Os professores contam com Chromebooks, as salas de aula dispõem de Smart TVs e a escola oferece computadores, impressora e folhas disponíveis para uso dos docentes. A instituição também possui acesso à internet para alunos, professores e equipe diretiva, além de câmeras de monitoramento.


Esses recursos modificaram a dinâmica do ambiente escolar, ampliando as possibilidades de trabalho pedagógico e de organização administrativa.


Entretanto, nem todas as melhorias desejadas foram implementadas. O diretor explicou que a escola ainda não dispõe de aparelhos de ar-condicionado, pois a rede elétrica não comporta a instalação desses equipamentos nas condições atuais.


REFORMA QUE BUSCA MELHORAR A ESTRUTURA FÍSICA DA ESCOLA


Durante a conversa, Dircinei e Débora afirmaram que a estrutura física é um dos pontos que vêm recebendo atenção. Segundo eles, essa realidade está passando por mudanças com a reforma em andamento nos dois prédios da instituição, que conta com um investimento de aproximadamente R$ 2,5 milhões.


O diretor demonstrou satisfação com o andamento dos trabalhos e destacou a qualidade dos materiais utilizados, além de avaliar positivamente o serviço executado pela empresa responsável pela obra.


Apesar das melhorias em curso, a escola enfrenta limitações de espaço. Atualmente, todas as salas estão ocupadas, o que impede a destinação de um ambiente específico para a biblioteca, por exemplo. Por isso, os alunos que desejam retirar livros para leitura precisam recorrer à sala da direção, onde estão os livros.


A falta de espaço também afeta a realização de atividades coletivas. Questionada sobre a existência de um ambiente amplo para reunir os estudantes, como um auditório, a professora Débora explicou que, no momento, a escola não dispõe de um local em condições de uso para essa finalidade. O espaço existente fica no prédio que está interditado para a reforma.


CURSO TÉCNICO EM AGRONEGÓCIO ESTÁ PREVISTO


Entre as novidades anunciadas pelo diretor está a implantação de um curso técnico em Agronegócio. A escola já foi contemplada com a oferta, mas o início das atividades depende da conclusão das obras e da disponibilidade da estrutura necessária.


“Assim que as reformas terminarem, o curso começa, talvez no segundo semestre de 2027”, afirmou Dircinei.


Segundo ele, a instituição já possui mobiliário e computadores destinados ao curso. A nova oferta representa uma possibilidade de ampliar as oportunidades de formação dos estudantes, especialmente em uma região na qual as atividades agropecuárias têm relevância econômica e social.


A escola também conta com um ginásio utilizado em parceria com o município e dispõe de uma sala de recursos equipada, onde são atendidos 17 alunos.


O TRABALHO DOS PROFISSIONAIS FAZ A DIFERENÇA 


Ao falar sobre os aspectos positivos da instituição, os entrevistados destacaram o trabalho das secretárias Paola e Rafaela, ressaltando a dedicação e compromisso de ambas às atividades administrativas.


Dircinei enfatizou a importância dessas profissionais para o funcionamento da escola.


“Elas dão cerca de 70% de suporte à direção”, comentou o diretor, acrescentando que Rafaela também auxilia nas questões financeiras, uma vez que a escola não dispõe de um profissional específico para essa função.

O diretor ressalta, ainda,  "a importância de todos os funcionários para o o bom andamento das atividades escolares, também as monitoras Andreia e Rosimar que fazem a recepção aos alunos com muita responsabilidade e acolhimento. Além de toda logística durante os turnos, especialmente na saída dos alunos para o transporte escolar".

Destaca que "nosso setor de limpeza que busca fazer o melhor, mesmo estando com necessidade de mais pessoal, demanda esta que já foi solicitada. Inclusive porque nosso pátio é bem grande, um ponto que vejo como muito positivo, onde os alunos tem espaço para explorar, conviver e praticar as atividades esportivas, porém necessita de constante manutenção e reparos".

Outro aspecto mencionado foi a realização de compras, feitas principalmente no comércio de Tavares, contribuindo para movimentar a economia local.


A escola oferece alimentação aos estudantes nos três turnos de funcionamento. Nesse contexto, o diretor também destacou o trabalho das cozinheiras, que, segundo ele, são dedicadas e responsáveis no preparo das refeições.


São atividades que nem sempre aparecem em evidência, mas que contribuem diretamente para o funcionamento da instituição e para o atendimento diário dos estudantes.


CONVIVÊNCIA ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO FINANCEIRA 

Ao abordar o ambiente escolar, Dircinei afirmou que a situação está tranquila atualmente, especialmente quando comparada a períodos anteriores, nos quais havia mais conflitos entre os alunos.


“A escola está tranquila atualmente. Mas já esteve difícil, com conflitos entre alunos. Felizmente, a situação mudou nos últimos cinco anos, aproximadamente. Era o contexto social que se refletia na escola”, comentou.


A fala do diretor chama a atenção para a relação entre a realidade vivida pelos estudantes fora dos muros escolares e as relações estabelecidas no ambiente de ensino.


Em relação à situação financeira, Dircinei afirmou que a escola dispõe de recursos para atender às suas necessidades. Segundo ele, tem sido possível administrar os valores de maneira razoável, desde que haja controle, planejamento e cuidado com os gastos.


PROJETOS, ATIVIDADES E EXPERIÊNCIAS EDUCATIVAS

Na parte final da entrevista, o diretor e a supervisora falaram sobre os projetos e as atividades desenvolvidos pela escola nos últimos tempos.


Entre as iniciativas mencionadas estão o projeto de Doação de Órgãos, o Setembro Amarelo, a Feira de Ciências, a Mostra de Trabalhos e a participação na Feira do Livro do município. A instituição também conta com a banda fanfarra simples, formada por alunos e ex-alunos, promove torneios e participa de atividades relacionadas ao Centro Cultural Nativista (CCN) Menotti Garibaldi.


O diretor também informou que está prevista uma visita ao Museu da PUCRS, em Porto Alegre, iniciativa que, segundo ele, será realizada depois de muito tempo.


Outra atividade programada envolve um grupo de alunos dos anos iniciais, que deverá visitar o Parque das Águas, em Viamão, mais para o final do ano.


Durante o mês dedicado às crianças, a escola organizou duas semanas de atividades diferenciadas, proporcionando momentos de integração e experiências que vão além da rotina habitual das aulas.


Uma mudança simples, mas significativa, também foi destacada durante a conversa: a tradicional sirene foi substituída por um toque musical. A medida foi adotada em respeito às pessoas com síndromes que apresentam elevada sensibilidade aos sons, demonstrando atenção às necessidades específicas dos integrantes da comunidade escolar.


UMA ESCOLA EM TRANSFORMAÇÃO 


A conversa com o diretor Dircinei e a supervisora Débora permitiu conhecer um pouco mais da realidade atual da Escola Edgardo, uma instituição que atravessou diferentes períodos da história brasileira e continua presente na formação de gerações de tavarenses.


A entrevista evidenciou desafios relacionados à redução do número de alunos, à composição do quadro de profissionais, à limitação de espaços e à necessidade de adequações estruturais. Ao mesmo tempo, revelou iniciativas, projetos e esforços voltados à melhoria das condições de ensino e à ampliação das oportunidades oferecidas aos estudantes.


A impressão deixada pelo encontro foi a de uma equipe que busca trabalhar de forma integrada, valorizando as relações humanas e a cooperação no cotidiano escolar.


Com a reforma em andamento, a perspectiva de implantação do curso técnico em Agronegócio e a continuidade dos projetos pedagógicos, a Escola Edgardo vive um período de mudanças. Preservar sua história, enfrentar os desafios do presente e preparar os jovens para o futuro permanecem entre as tarefas de uma instituição cuja trajetória se confunde com parte importante da história de Tavares.

Não podemos esquecer "também o grupo de professores que fazem.a diferença no dia a dia da escola com esforço e dedicação, sempre buscando o melhor para os educados", conclui o diretor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

JUCIMAR ANTUNES: mais um empreendedor de sucesso

 


A trajetória de Jucimar Vieira Antunes, entrevistado pelo *Espaço de Reflexão*, é marcada pelo esforço, pela determinação e pela coragem de buscar novas possibilidades. Desde cedo, aprendeu o valor do trabalho nas lavouras de cebola e arroz, atividades que fizeram parte de sua infância e adolescência e lhe ensinaram importantes lições sobre dedicação e perseverança.


Entretanto, ao perceber que aquele caminho talvez não lhe proporcionasse o futuro mais tranquilo que desejava, decidiu buscar novos horizontes. Trabalhou em uma granja e em um mercado até encontrar no empreendedorismo uma oportunidade de construir uma nova perspectiva de vida. Foi assim que surgiu a ideia de investir em uma lavagem de carros, iniciativa que, com coragem e disposição para enfrentar desafios, deu origem ao empreendimento que mantém até hoje. Uma escolha que, olhando para o caminho percorrido, ele afirma não ter sido motivo de arrependimento.


Natural de Tavares, Jucimar tem 40 anos e trabalhou na agricultura até aproximadamente os 25 anos, principalmente no cultivo da cebola e do arroz. Há 18 anos, iniciou seu próprio negócio, então denominado Lavacar, que hoje se chama JS Autopartes. O empreendimento ampliou suas atividades e, atualmente, oferece serviços de lavagem de automóveis, caminhões e outras máquinas, além de comercializar acessórios automotivos, lubrificantes, baterias, peças de lataria, entre outros produtos.


O CENÁRIO DAS VENDAS 


Ao ser questionado sobre o movimento atual dos negócios, Jucimar relatou que já houve períodos melhores. Segundo ele, a lavagem de veículos tinha uma procura bem maior, assim como as vendas de lubrificantes. Na sua avaliação, a redução da atividade econômica nos setores de resinas e madeira pode ter contribuído para a diminuição da circulação de dinheiro no município.


Apesar desse cenário, o empreendedor procura ampliar seu mercado consumidor. Conforme relatou, também tem atendido clientes de Mostardas, o que ajuda a manter as vendas em um patamar razoável. A busca por novos mercados, portanto, representa uma alternativa importante para enfrentar as dificuldades e dar continuidade às atividades comerciais.


FAMÍLIA E TRABALHO 


Além de Jucimar, a esposa Simone e os filhos João e Raul, também fazem parte de sua rotina familiar, enquanto o empreendimento conta com mais quatro funcionárias, que trabalham de segunda-feira a sábado, até o meio-dia. A participação da família e a colaboração da equipe integram o cotidiano da empresa, que mantém suas atividades com o objetivo de atender às necessidades dos clientes.


A JS Autopest funciona em prédio próprio, localizado na entrada de Tavares, a aproximadamente um quilômetro do pórtico, à esquerda de quem chega à cidade. A localização favorece o acesso dos clientes, enquanto a estrutura do imóvel oferece boas condições para o desenvolvimento das atividades.


A história de Jucimar revela a trajetória de alguém que, depois de dedicar boa parte da juventude ao trabalho na agricultura, decidiu apostar em um caminho diferente. Com iniciativa e disposição para empreender, construiu uma alternativa profissional e segue trabalhando para manter e desenvolver seu negócio, ao lado da família e de sua equipe.