Estamos acostumados a olhar para as pessoas a partir daquilo que fazem profissionalmente. Ao conhecer alguém, uma das perguntas mais comuns é: “Com o que você trabalha?”. De fato, o trabalho ocupa um lugar importante na construção da identidade humana, como reconhece a Sociologia. No entanto, cada pessoa carrega consigo uma história muito mais complexa do que o simples exercício de uma profissão. Por trás de cada trabalhador, existe uma trajetória singular, marcada por lutas, resiliência, empatia, medos, sofrimentos, angústias, inseguranças, fé e superação. São experiências que nem sempre aparecem no cotidiano, mas que ajudam a compreender quem realmente somos. Afinal, conhecer uma pessoa vai muito além de saber o que ela faz: significa também descobrir as histórias que viveu, os desafios que enfrentou e a força que encontrou para seguir em frente.
Assim é a história de Isleziel Silva dos Santos, mais conhecido como Alemão, filho de Efrain. Tavarense, 33 anos, estudou na Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho, onde não chegou a concluir o Ensino Médio. É casado com Laraíne e pai de Ítalo.
UMA VIDA DEDICADA AO TRABALHO
Alemão tem uma longa relação com o trabalho. Ao iniciar a conversa sobre sua trajetória de vida, contou que, aos 12 anos, já trabalhava carregando sacos de cebola para os caminhões durante a safra de verão. Depois desse período, começou a trabalhar como servente de pedreiro, atividade que exerceu por cerca de quatro anos.
Certo dia, conversou com o chefe e disse que queria aprender o ofício de construtor, pois não desejava permanecer apenas como servente. O patrão aceitou a proposta e se dispôs a ensiná-lo. Aos 16 anos, Alemão já trabalhava como construtor, ainda empregado, condição que manteve até aproximadamente os 18 anos.
Posteriormente, trabalhou por menos de um ano em uma empresa de asfalto. Ao sair, comprou ferramentas e decidiu trabalhar por conta própria, dando início à sua caminhada como construtor autônomo. Aos 20 anos, deixou de trabalhar sozinho e passou a contratar outras pessoas, assumindo também a responsabilidade de chefiar equipes de trabalhadores nas obras. Exerceu essa atividade até os 29 anos.
A MUDANÇA DE PROFISSÃO
Alemão não tem medo de mudar os planos. Cansado da rotina das construções, decidiu buscar novos caminhos profissionais. Ainda enquanto trabalhava nas obras, fez um curso on-line de autoelétrica e colocou na cabeça que aprenderia o ofício para, futuramente, montar sua própria oficina.
Para complementar o aprendizado, passou um ano trabalhando em uma autoelétrica em Mostardas, dois dias por semana, sem receber remuneração. Era uma forma de transformar a teoria em prática e adquirir experiência para iniciar o próprio negócio.
Certo dia, foi chamado para fazer um orçamento de construção de uma casa. Ao chegar ao local, sugeriu à proprietária que, em vez da casa, construísse um galpão, pois seria mais fácil alugá-lo. Inclusive, ele próprio tinha interesse em alugar o espaço para instalar sua oficina.
“A dona falou que iria pensar”, contou Alemão.
Alguns dias depois, ela decidiu construir o galpão. “Daí eu fiz e depois aluguei e montei a oficina”, relatou.
No primeiro dia de trabalho, a expectativa foi colocada à prova. “Fiquei das 8h às 9h sentado, esperando serviço. Mas, quando comecei, foi até o final do dia, sempre com serviço. Daí me animei”, recordou.
A oficina funcionou por pouco mais de um ano. Mas, afinal, por que Alemão decidiu mudar de profissão novamente?
“Não, minha esposa adoeceu”, respondeu, com a voz embargada.
UM PERÍODO DE MEDO, ANGÚSTIA E FÉ
A partir desse momento, a história de Alemão ganha contornos de sofrimento, preocupação e luta familiar. Ele começou contando que a esposa apresentava um problema de saúde cuja causa foi difícil de identificar. Foram meses de consultas com médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede particular até que uma médica do SUS conseguiu identificar a doença: psoríase.
A psoríase é uma doença inflamatória crônica da pele, relacionada ao funcionamento do sistema imunológico. Pode provocar placas avermelhadas, descamação e coceira.
Alemão contou que chegou a gastar R$ 380 por dia com medicamentos durante mais de um mês, sem obter os resultados esperados.
Quando finalmente recebeu o diagnóstico, Laraíne começou o tratamento prescrito pela médica. A família acreditava que, enfim, o problema estaria sendo resolvido. No entanto, aquele drama ainda estava longe de chegar ao fim.
Segundo Alemão, a médica prescreveu uma dosagem incorreta do medicamento. A quantidade indicada deveria ser administrada uma vez por semana, mas foi receitada para uso diário.
Depois de aproximadamente uma semana, Loraíne começou a sentir dores no estômago e passou a apresentar um quadro de mal-estar intenso. Com o passar dos dias, seu estado de saúde se agravava. A família procurou atendimento, mas, inicialmente, não conseguiu encaminhá-la ao hospital de Osório porque não havia leito disponível.
Ao recordar esse período, Alemão interrompeu o depoimento e se emocionou ao lembrar o sofrimento da esposa. Por alguns instantes, permaneceu em silêncio, com a voz embargada, até conseguir retomar o relato.
Após a realização de exames no hospital de Osório, um médico informou que os sintomas levantavam a suspeita de leucemia.
“Daí a casa quase caiu”, contou Alemão, ao recordar o impacto daquela notícia.
Vieram mais exames, enquanto o estado de saúde de Loraíne continuava preocupante. Ela recebeu transfusão de plaquetas e apresentou melhora durante três dias, mas, depois, os sintomas voltaram. Posteriormente, os médicos realizaram um exame da medula óssea para investigar a suspeita de leucemia.
Foi nesse período de incerteza que a fé ganhou ainda mais significado para Alemão. Ele contou que, em determinado momento, abriu o Facebook no celular e encontrou um versículo bíblico. Naquele instante, buscava em Deus forças e ajuda para enfrentar a situação.
Finalmente, chegou o resultado do exame da medula óssea: Loraíne não estava com leucemia.
Após uma nova avaliação da equipe médica, descobriu-se que o problema estava relacionado à superdosagem do medicamento. Com a redução da dose, ela começou a apresentar melhoras.
A RAIVA DEU LUGAR À SERENIDADE
Ao perceber que o sofrimento da esposa poderia ter sido provocado por um erro na prescrição médica, Alemão saiu pelo hospital à procura da profissional responsável para cobrar explicações sobre o ocorrido.
Ele próprio reconheceu que foi melhor não tê-la encontrado naquele momento, pois não sabia qual teria sido sua reação diante da médica.
Cerca de 20 dias depois, havia uma nova consulta com a mesma profissional. Segundo Alemão, ela pediu que ele não entrasse no consultório, mas ele fez questão de acompanhá-la para explicar o que havia acontecido.
Perguntei se ainda sentia raiva da médica. Ele respondeu que, naquele momento, já estava mais calmo e que o sentimento de raiva havia passado. Seu objetivo era explicar as consequências do ocorrido e alertá-la para que tivesse cuidado, a fim de evitar que uma situação semelhante voltasse a acontecer.
Felizmente, Laraíne continuou se recuperando. Com a medicação na dosagem correta, sua saúde apresentou melhoras progressivas.
Alemão relatou esse período com a tranquilidade de quem reconhece que o pior havia passado. Hoje, dois anos depois, segundo ele, cerca de 95% do problema está resolvido ou controlado.
A história, marcada por medo, incertezas e sofrimento, começou a dar lugar à esperança de uma vida mais tranquila.
NIVOS CAMINHOS, NOVOS PROJETOS
Com a melhora da esposa, Alemão conseguiu retomar suas atividades profissionais. Voltou a trabalhar na autoelétrica, agora como sócio, e aos poucos reorganizou sua vida.
Entretanto, sua vontade de empreender não havia terminado. Mesmo enquanto trabalhava na oficina, alimentava o sonho de abrir um mercado.
Mais uma vez, decidiu investir em um novo projeto. Inicialmente, construiu uma peça de 6 x 7 metros. Depois, ampliou o espaço com outra parte de 7 x 7 metros e acrescentou um depósito de 5 x 5 metros. Assim, foi tomando forma o mercado ISantos, localizado na Rua Marcelo Gama, nº 373, em Tavares.
Hoje, Alemão está satisfeito com o comércio. Deixou a autoelétrica e passou a se dedicar exclusivamente ao mercado, onde trabalha durante toda a semana, tendo como período de descanso as tardes de domingo. Conta também com uma funcionária para auxiliá-lo nas atividades.
Ao longo da vida, Alemão passou por diferentes profissões: começou carregando cebolas, trabalhou como servente de pedreiro, tornou-se construtor, investiu na autoelétrica e, mais recentemente, ingressou no comércio. Em cada etapa, demonstrou disposição para aprender, trabalhar e recomeçar.
Sua trajetória, porém, não se resume às mudanças profissionais. A doença da esposa trouxe à família momentos de profunda angústia, medo e incerteza, mas também evidenciou a importância da fé, da perseverança e da capacidade de enfrentar as adversidades.
A história de Alemão nos lembra que, por trás de cada comerciante, pedreiro, mecânico ou trabalhador, existe um ser humano com sonhos, responsabilidades, preocupações e experiências que nem sempre são percebidas por quem o encontra no dia a dia.
Conhecer essas histórias é compreender que a vida não se resume àquilo que fazemos para ganhar o sustento. Ela também é feita dos desafios que enfrentamos, das pessoas que amamos, das escolhas que fazemos e da coragem que encontramos para seguir em frente, mesmo quando os caminhos parecem difíceis.

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