Na Lagoa do Peixe, a pesca não é apenas uma atividade de trabalho, mas uma tradição que atravessa gerações. No verão, quando chega a temporada do camarão, o pescador se lança às águas em busca do sustento. Em outras épocas do ano, são os peixes que fazem parte de sua rotina.
Herdeiro de uma história familiar, aprendeu com o avô e com o pai os conhecimentos e os segredos da pesca, construindo, desde cedo, uma relação de respeito e pertencimento com a lagoa. Hoje, seguindo os passos daqueles que o antecederam, mantém viva uma tradição que faz parte da identidade das comunidades tradicionais que vivem às margens da Lagoa do Peixe.
Hoje, a prosa foi com Eraldo Machado Lopes, natural de Tavares, nascido há 55 anos e criado na localidade de Guaritas. Agricultor dedicado, principalmente, ao cultivo da cebola, Eraldo também é pescador, como tantos outros agricultores daquela região. Antigamente, a pesca era destinada à subsistência familiar; hoje, tornou-se também uma atividade voltada ao comércio.
Eraldo conta que, no passado, a pesca era uma atividade livre. Bastava ir até a lagoa e começar o trabalho. Pescavam tanto os integrantes das comunidades tradicionais quanto outros moradores do município. Depois da criação do Parque Nacional da Lagoa do Peixe (PARNA), em 1986, a situação mudou. Os órgãos ambientais passaram a estabelecer normas para a pesca, fiscalizar a atividade e definir quem pode ou não pescar na região abrangida pelo parque.
Segundo Eraldo, atualmente há cerca de 200 pescadores cadastrados. Para fazer parte desse grupo, é necessário pertencer às comunidades tradicionais da lagoa e comprovar que se é filho de alguém daquela região.
Como já mencionado no início desta prosa, Eraldo é neto e filho de pescadores. Por isso, pode ser incluído na comunidade de pescadores. Seguindo essa tradição familiar, seus filhos também poderão ser admitidos na atividade, desde que atendam aos critérios estabelecidos.
Embora tenha apenas 55 anos, Eraldo já percebeu mudanças significativas na lagoa ao longo de sua vida. Ele conta que, há cerca de 50 anos, a água era mais profunda e, em alguns lugares, chegava à altura da cintura. Com o passar do tempo, segundo sua percepção, a lagoa foi ficando mais rasa, em um processo que atribui à própria natureza. Atualmente, a quantidade de água é muito menor, o que influencia diretamente a pesca, pois, em algumas ocasiões, a lagoa chega a secar.
Ao falar sobre a pesca do camarão, Eraldo apresenta sua interpretação para o comportamento do crustáceo diante da diminuição do nível da água:
“Com menos água, o camarão está sempre querendo sair e ir para o mar. Os bichos conhecem a natureza. Menos água representa risco para eles; então, se puderem, fogem para o mar.”
O pescador ressalta, porém, que essa é uma interpretação pessoal e que outros profissionais da pesca podem ter entendimentos diferentes sobre o assunto.
As mudanças também atingiram os equipamentos e as práticas de pesca. Eraldo recorda que, antigamente, era possível capturar camarões com redes de arrasto, conhecidas como cocas, prática que hoje é proibida. Também eram utilizados lampiões a gás, chamados popularmente de liquiquinhos. Atualmente, segundo ele, são permitidas apenas lanternas solares.
Durante a conversa, ele também relembrou a antiga Vila da Barra, que existia há cerca de 40 anos. Naquela época, o local contava com escola, hotel, campo de futebol e outras estruturas que davam vida à comunidade. Com o passar do tempo, porém, a natureza foi avançando sobre a vila, e as dunas acabaram invadindo a área ocupada pelos moradores. Hoje, a localidade já não existe há muitos anos, restando apenas algumas ruínas como testemunhas de sua história.
Voltando ao assunto que mais interessa a Eraldo — a pesca do camarão —, ele explica que a atividade ocorre, geralmente, entre dezembro e abril ou maio. O período depende da liberação dos órgãos ambientais competentes, especialmente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), por meio das regras de manejo e fiscalização relacionadas à atividade.
Nesse momento da conversa, Eraldo chama a atenção para uma dificuldade enfrentada pelos pescadores: a proibição da pesca durante determinados períodos, geralmente quando os camarões ainda estão pequenos.
Segundo ele, enquanto os pescadores esperam que os crustáceos cresçam, existe o risco de que eles deixem a lagoa e sigam em direção ao mar.
“Daí, se isso acontecer, todos perdem. Não há garantia de que, ao voltar lá para ver se o camarão cresceu, ele ainda esteja na lagoa. A lagoa não é um cativeiro, onde eles ficam presos”, afirma.
Eraldo explica, ainda, que a salinidade da água também influencia a presença do camarão. Segundo ele, quando a água está muito salgada, o crustáceo não se desenvolve.
Os peixes, assim como os camarões, também podem entrar e sair da lagoa. Perguntei a Eraldo quais são as principais espécies encontradas no local. Ele citou a tainha, o peixe-rei, o linguado e o borriquete. E o siri, que é uma alternativa, que vem junto ao camarão na rede ou capturado através de espinhel.
Durante a prosa, o pescador também me explicou um pouco da geografia da lagoa, mencionando locais conhecidos pelos trabalhadores da pesca, como Chica, Natalício, Capitão, Formiga, Barra, Paiva, Lagamarzinho, Costa e Veia Terra. Ele também falou sobre a Cambota, onde a pesca é proibida por ser considerada uma área de reprodução.
A rotina dos pescadores exige disposição e resistência física. No fim da tarde, eles colocam as redes na água e, em alguns casos, permanecem acampados em barracas à beira da lagoa. Durante a madrugada, começam a recolher o material e descobrem o resultado do trabalho, que pode ser motivo de comemoração ou de lamentação, dependendo da quantidade capturada.
“Vida de pescador não é moleza”, resume Eraldo.
Ele explica que os pescadores precisam remar os caícos até o local onde estão as redes. Quando há temporal ou vento forte, é necessário puxar a embarcação, enfrentando um percurso de ida e volta que, segundo ele, chega a aproximadamente seis quilômetros. É tudo no esforço físico, como faz questão de destacar.
Uma mudança recente, entretanto, trouxe esperança de dias menos cansativos. Segundo Eraldo, agora está sendo autorizada a utilização de embarcações com motor, o que facilita bastante o trabalho dos pescadores. A novidade é comemorada por ele, pois reduz parte do esforço exigido pela atividade.
Outro problema relatado durante a entrevista é a dificuldade de acesso à lagoa. Conforme Eraldo, alguns proprietários rurais já não permitem que os pescadores atravessem suas propriedades para chegar aos locais de pesca, o que acaba criando obstáculos para o desenvolvimento do trabalho.
Ao final da entrevista, perguntei a Eraldo se, atualmente, vale a pena trabalhar com a pesca do camarão e do peixe. Sua resposta foi direta: hoje, essa atividade já não representa uma opção tão vantajosa como no passado. Ele inclusive não aconselha o próprio filho a seguir essa profissão.
“O preço é baixo, já foi melhor. Nem sempre temos uma safra de camarão que renda, e ele é o principal produto”, conclui.
A conversa com Eraldo Machado Lopes revela uma realidade marcada pela tradição, pelo conhecimento transmitido entre gerações e pela relação profunda entre o homem e a natureza. Ao mesmo tempo, mostra os desafios enfrentados por quem depende da Lagoa do Peixe para trabalhar e garantir o sustento da família. Entre as lembranças de um passado diferente e as incertezas do presente, permanece a história de uma atividade que faz parte da identidade cultural e econômica das comunidades tradicionais da região.

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