A trajetória desse pesquisador da cultura quilombola revela que o conhecimento não se constrói apenas nos bancos escolares, mas também por meio das experiências, das vivências e das lições que a própria vida ensina. Embora tenha frequentado a escola formal até a quinta série, encontrou na chamada "faculdade da vida" um vasto campo de aprendizagens, que hoje se transforma em conhecimento compartilhado.
Pesquisador da ancestralidade afro-brasileira, ele se dedica a ministrar cursos e palestras que resgatam a memória, valorizam a identidade e preservam a história de seu povo. Ao mesmo tempo, promove reflexões sobre os desafios da cidadania das comunidades quilombolas. Sua caminhada demonstra que a educação ultrapassa os limites da sala de aula e que conhecer as próprias raízes também é uma forma de fortalecer identidades, reivindicar direitos e construir caminhos para uma sociedade mais justa e inclusiva.
A introdução acima se refere a Luís Faustino Lopes da Silva,de 50 anos, tavarense, nascido e criado no Beco da Fumaça, na localidade de Capororocas. Mais conhecido como Faustino, ele vive em uma região cuja identidade histórica está vinculada ao Quilombo Vovó Virgilino. É, sobretudo, sobre essa história, a ancestralidade de seu povo e as lutas da comunidade que trata a entrevista concedida ao Espaço de Reflexão.
A HISTÓRIA DO QUILOMBO VOVÓ VIRGILINO
No primeiro momento da conversa, quis saber como a comunidade do Beco da Fumaça se transformou em um quilombo legalmente reconhecido.
Faustino explica que a comunidade de Casca, localizada em Mostardas, foi a primeira do Rio Grande do Sul a receber esse reconhecimento, há cerca de 30 anos, após pesquisas da Fundação Cultural Palmares.
Em Tavares, segundo ele, os estudos começaram aproximadamente entre 1998 e 1999. As pesquisas apontaram que Vovó Virgilino, seu ancestral, teria vindo da África em um navio negreiro. Após desembarcar no Rio de Janeiro, seguiu para Pelotas e, posteriormente, para Mostardas, onde teria chegado pela praia e se refugiado no Mato da Costa. No decorrer dessa trajetória, acabou chegando à região de Tavares.
De acordo com Faustino, os estudos realizados pela Fundação Cultural Palmares identificaram os descendentes de Virgilino como remanescentes de povos submetidos à escravidão, condição que possibilitou o reconhecimento da comunidade como quilombola.
Perguntei se, no início das pesquisas, os moradores compreendiam do que se tratava o estudo e que possibilidade existia de a comunidade vir a ser reconhecida como quilombo.
Faustino explicou que, inicialmente, muitos moradores desconheciam o significado daquelas pesquisas e sentiam medo e receio diante da situação.
“Os povos negros já tinham uma história de exclusão e desprezo, sendo vistos como seres sem direitos. Quando alguém chega fazendo uma pesquisa, logo vem o pensamento: no que isso vai resultar?”, relata.
Por volta do ano 2000, segundo ele, veio o resultado indicando a possibilidade de reconhecimento da comunidade do Beco da Fumaça como quilombo, incluindo as pessoas que comprovassem sua descendência de Virgilino.
SER QUILOMBOLA É SUJEITO DE DIREITOS
Mas, afinal, o que significa pertencer a uma comunidade quilombola? E quais possibilidades esse reconhecimento pode proporcionar aos moradores?
Conforme Faustino, tudo aquilo era novidade para a comunidade. No início, havia dúvidas e dificuldades para compreender o significado e as consequências daquele processo. Aos poucos, porém, os moradores passaram a entender melhor a importância do reconhecimento.
“Ser quilombola é ser sujeito de direitos, fortalecer as comunidades, conseguir emendas parlamentares para políticas públicas de saúde e agricultura, inserir-se em programas de moradia, ter acesso às universidades e conquistar espaço de voz”, explica Faustino.
Atualmente, a comunidade quilombola Vó Virgilino conta com uma associação composta por 55 sócios, presidida por Luiz Faustino. Segundo ele, cinco integrantes da comunidade são bolsistas em universidades, um resultado que representa novas oportunidades de acesso à educação e de construção de perspectivas para as novas gerações.
A MEMÓRIA DOS ANCESTRAIS
O interesse de Faustino pela história de sua ancestralidade nasceu também das lembranças transmitidas por seus familiares.
Ele recorda que sua avó Josina, que morava em Mostardas, costumava falar sobre o sofrimento enfrentado por seu povo. Também menciona a história de seu avô Talíbio, que vivia no Rincão do Cristóvão Pereira.
Ao recordar a trajetória familiar, Faustino conta que a mãe de seu avô era filha de um filho de seu patrão. Segundo ele, essa circunstância ajuda a compreender por que alguns descendentes dessa linhagem não apresentam a pele negra.
São histórias familiares que atravessam gerações e ajudam a compreender as relações sociais, as experiências de violência e as marcas deixadas pela escravidão na formação das comunidades negras da região.
DA CURIOSIDADE À PESQUISA SOCIAL
O interesse pela história de seus antepassados levou Faustino a aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura afro-brasileira. Mesmo sem uma longa trajetória escolar, tornou-se um pesquisador social reconhecido por seu trabalho de valorização da ancestralidade quilombola.
Ao longo de sua caminhada, ministrou cursos e palestras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em atividades coordenadas pela professora Alba, e também compartilhou seus conhecimentos na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Além disso, realizou trabalhos em escolas de Cachoeira do Sul, levando aos estudantes reflexões sobre a história e a cultura de seu povo.
Para Faustino, a luta pelo reconhecimento e pela valorização da cultura quilombola é permanente. “A luta é uma caminhada”, lembra.
Quando sai de Tavares para participar de palestras e atividades culturais, ele faz questão de levar consigo o nome do município, divulgando a história e as manifestações culturais de sua terra.
Entre essas manifestações, destaca-se o Ensaio de Pagamento de Promessa, expressão religiosa tradicional que preserva elementos da história e da identidade das comunidades negras rurais da região.
O ENSAIO DE PAGAMENTO DE PROMESSA: FÉ E ANCESTRALIDADE
Faustino explica que o Ensaio de Pagamento de Promessa está relacionado à religiosidade católica dos povos negros do meio rural, em um período no qual havia pouca presença de padres nessas localidades. Segundo ele, os negros enfrentavam situações de repressão e, muitas vezes, eram impedidos de expressar livremente sua fé.
O pesquisador também menciona o ensaio conduzido pela família de Arlindo, destacando a importância do tambor como instrumento de ancestralidade e o papel das curandeiras em uma época na qual o acesso aos médicos era limitado.
Conforme relata, as promessas eram feitas por diferentes motivos: uma boa colheita, a cura de uma doença, o nascimento de uma criança ou o sucesso de um parto realizado por uma parteira. Essas práticas expressavam a fé e a devoção a Nossa Senhora.
“Isso tudo começou no mato, quando existia a escravidão. Os cânticos contam a história dos negros desde a África até o Brasil”, relata Faustino.
Mais do que uma manifestação religiosa, o Ensaio de Pagamento de Promessa representa, em sua compreensão, uma forma de preservar a memória coletiva. Por meio dos cantos, dos tambores e dos rituais, conhecimentos e tradições são transmitidos entre as gerações, mantendo viva uma parte significativa da história cultural da região.
APRENDIZAGENS QUE VÊM DA VIDA
Perguntei a Faustino quando havia começado seu interesse por essa história. Ele contou que iniciou seus estudos em Mostardas há aproximadamente 30 anos e que aprendeu muito com Horlando Cardoso Duarte, dançante de Ensaio e Rei do Congo.
A partir dessas experiências, Faustino ampliou seus conhecimentos e passou a desenvolver atividades voltadas à valorização da cultura afro-brasileira e das tradições quilombolas.
Durante dois anos, trabalhou na Escola Izabel Cristina, em Tavares, desenvolvendo atividades relacionadas à culinária africana, oficinas de artesanato, preparação de chás caseiros e estudos sobre ancestralidade.
Seu trabalho também se estende às novas gerações. Atualmente, mantém o Grupo Quicumbi, formado por oito adolescentes que integram um grupo de tambores. Além disso, possui um contrato com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Tavares, onde desenvolve oficinas culturais envolvendo a prática dos tambores.
Essas iniciativas demonstram como a cultura pode ser um instrumento de aprendizagem, integração social e valorização das identidades. Ao aproximar os jovens das tradições de seus antepassados, Faustino contribui para que esse patrimônio cultural continue vivo e encontre espaço no presente.
O pesquisador também relata ter participado de entrevistas relacionadas a trabalhos desenvolvidos por uma universidade de Porto Alegre. Embora seja considerado autodidata, buscou ampliar sua formação e, há cerca de seis anos, realizou um curso de Turismo Rural.
PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL
Ao final da entrevista, Faustino fez questão de destacar o significado que esse trabalho tem em sua vida. Sua trajetória é marcada pela busca do conhecimento, pelo envolvimento com a comunidade e pela disposição de compartilhar aquilo que aprendeu ao longo dos anos.
Sua história mostra que a formação de uma pessoa não se limita aos anos de escolarização. As experiências, a escuta dos mais velhos, a pesquisa, a convivência comunitária e o contato com diferentes espaços de aprendizagem também podem produzir conhecimentos importantes para a sociedade.
A caminhada de Luiz Faustino Lopes da Silva ajuda a compreender que preservar a ancestralidade não significa apenas olhar para o passado. Significa reconhecer as origens, compreender as marcas da história, valorizar a identidade coletiva e contribuir para que as novas gerações conheçam suas raízes.
Alegre e satisfeito com o caminho percorrido, Faustino resume sua motivação em palavras que expressam seu compromisso com a comunidade: "Gosto do envolvimento social, da participação e do protagonismo".
É nesse compromisso que sua história ganha significado: na transformação do conhecimento adquirido ao longo da vida em uma ferramenta de valorização cultural, reconhecimento de direitos e fortalecimento da identidade quilombola de Tavares.

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