Há histórias que parecem desafiar os próprios limites da vida. Este é o caso do jovem desta história, que, diante de uma situação em que tudo indicava um desfecho trágico, conseguiu sobreviver. Poderíamos dizer que ele ainda tinha uma missão a cumprir aqui. Quando as circunstâncias pareciam apontar para o fim, algo extraordinário aconteceu: contra todas as expectativas, ele sobreviveu.
Para sua família e para aqueles que acompanharam de perto aquele momento, a salvação foi vivida como um verdadeiro milagre, uma experiência marcada pela fé, pela esperança e pela certeza de que, mesmo nos momentos mais difíceis, a vida pode surpreender.
Naquela sexta-feira, no final da tarde, o Espaço de Reflexão foi ao encontro de Sávio da Silva Araújo, com o objetivo de conhecer melhor sua trajetória e compartilhar sua história com os leitores.
Sávio é um jovem que nasceu e foi criado na localidade do Butiá, hoje com 30 anos. Sua família sobrevivia do cultivo da cebola. Ao falar sobre esse período, Sávio ressaltou que, desde cedo, já imaginava que não seguiria na agricultura, pois não via um futuro promissor naquela atividade. Naquela época, a cebola proporcionava bons resultados em determinado ano, mas poderia representar prejuízo no seguinte.
Sávio estudou até a sexta série na Escola Olavo Bilac, no Posto, e posteriormente veio para a Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho.
O PRIMEIRO PASSO NO CAMINHO PROFISSIONAL
Durante o Ensino Médio, Sávio mantinha uma forte amizade com jovens da Igreja Católica. Era especialmente próximo de Crystian Silveira, que o indicou para o programa Mais Educação.
Sávio foi aceito e começou a trabalhar como monitor auxiliar dos oficineiros na Escola Edgardo. Era uma atividade realizada no turno inverso, voltada principalmente aos alunos que apresentavam dificuldades.
Ao vir para a cidade, entretanto, Sávio não tinha onde morar. Ele lembra:
“Sem endereço fixo, eu dependia da ajuda dos amigos. Ficava numa casa hoje, amanhã ficava noutra, e assim por diante.”
Desde jovem, Sávio também era participativo na Igreja Católica. Aos 16 ou 17 anos, já atuava como catequista.
Em 2013, no segundo semestre, surgiu uma nova oportunidade. O professor Thiago Pedone, que trabalhava na escolinha de futebol, havia sido nomeado em um concurso e, por esse motivo, precisou deixar a função.
Mas o que isso tinha a ver com Sávio?
Thiago passou a ajudar Terezinha Brum na escolha de um novo instrutor para ocupar sua função. Foi então que indicou Sávio, que acabou sendo escolhido.
A oportunidade o deixou imensamente feliz. Ele recorda, com gratidão:
“Até hoje tenho grande gratidão a ele, pois subia mais um degrau na ‘escada’ do trabalho e da renda.”
Em 2014, sua família migrou para a cidade. A partir daquele momento, Sávio passou a ter endereço fixo. Para ele, dias melhores começavam a surgir.
Trabalhando no Mais Educação pela manhã, estudando à tarde e atuando na escolinha de futebol no final do dia, conseguiu ampliar suas fontes de renda.
“Com duas fontes de renda, a renda melhorava”, afirmou.
O SONHO DE CONTINUAR OS ESTUDOS
Aos 17 anos, Sávio já pensava em concluir o Ensino Médio e prosseguir nos estudos.
“O primeiro sonho era estudar Psicologia”, contou.
No entanto, certo dia, uma colega ligou convidando-o para fazer o curso de Educação Física em uma faculdade de Rio Grande. Combinaram e foram.
Depois, convenceram outros jovens a participar. Ao todo, cinco estudantes se organizaram para dividir as despesas de deslocamento, já que o curso era semipresencial, com uma aula semanal em Rio Grande.
Assim, em fevereiro de 2014, Sávio começou sua trajetória como estudante universitário.
A partir daquele momento, passou a conquistar cada vez mais a confiança da família. Na escola, assumiu uma oficina dentro do Mais Educação e continuava trabalhando na escolinha de futebol.
Em 2015, porém, o contrato do Mais Educação chegou ao fim. E agora?
Sávio não se desesperou. Procurou alternativas e conseguiu trabalho na loja do Zé Franco, onde permaneceu por quase dois anos.
Ele faz questão de ressaltar:
“Sempre paguei a faculdade.”
Como os pais tinham uma situação financeira limitada, Sávio sabia que precisava construir seu próprio caminho para conseguir concluir o curso.
Em 2016, surgiu uma nova oportunidade. Foi indicado para o cargo de diretor de Esportes de Tavares, durante o governo de Flávio Rodrigues (MDB).
“Minha autoestima foi lá em cima”, confessou.
Naquele momento, tudo parecia caminhar bem: trabalho, renda melhor e a faculdade próxima da conclusão.
Mas, de repente, surgiu uma forte “turbulência” que abalaria sua vida.
ENTRE A VIDA E A MORTE
O problema de saúde aconteceu durante uma partida de futebol em um pequeno campo, junto com a gurizada. Ao final do jogo, Sávio sentiu uma pequena tontura.
Naquele momento, havia entre o grupo um policial que trabalhava na Operação Verão. Ao examinar seu pulso, percebeu que havia algo estranho. Os batimentos cardíacos estavam muito acelerados.
O policial recomendou que Sávio não retornasse para casa a pé. Ele foi levado ao pronto atendimento.
Ao chegar ao local, foi constatado que sua pressão arterial estava em 7 por 5, enquanto os batimentos cardíacos ultrapassavam 150 por minuto.
Em poucos minutos, Sávio sofreu duas paradas cardíacas. Na segunda, ficou cerca de dois minutos sem sinais vitais.
Mas ainda não era a hora de partir.
A equipe conseguiu reverter a situação por meio de massagens cardíacas e do uso do desfibrilador.
Entre a vida e a morte, Sávio foi encaminhado para Tramandaí. Lá, passou por exames, mas inicialmente não foi possível identificar a causa do problema.
Depois de uma semana, foi encaminhado para Porto Alegre. Por meio de uma ressonância magnética, os médicos descobriram um problema ventricular responsável por provocar arritmias.
Foi realizada uma intervenção cirúrgica, com a implantação de um CDI — Cardioversor Desfibrilador Implantável.
A partir desse procedimento, e com o dispositivo, Sávio deixou a situação crítica e passou a viver com mais segurança.
Quando tudo isso aconteceu, faltava apenas um semestre para concluir o curso de Educação Física.
Ainda no hospital, Sávio perguntou aos médicos se poderia exercer a profissão de professor de Educação Física. Surgiram dúvidas entre a equipe médica, momentos de angústia e suspense, até que veio a decisão: ele poderia atuar profissionalmente na área, porém com algumas restrições.
A FORMAÇÃO E O RETORNO AO TRABALHO
Em 2017, Sávio concluiu a Licenciatura em Educação Física. Finalmente, havia alcançado o diploma de nível superior e se tornado profissional de Educação Física.
Durante alguns meses, recebeu benefício do INSS. Porém, em uma perícia, fez questão de dizer que queria voltar a trabalhar.
Com a suspensão do benefício, começou a atuar como voluntário, auxiliando Jonifer Pedone nas atividades de ginástica com idosos no CRAS e também na escolinha de futebol.
Em 2018, o então secretário de Educação, Nardel Nunes, aconselhou-o a abrir uma microempresa para que pudesse participar de processos licitatórios relacionados à escolinha e à ginástica. Dessa forma, deixou a condição de voluntário e passou a atuar profissionalmente.
Durante a pandemia, houve uma interrupção nas atividades. Depois, Sávio voltou a trabalhar com os idosos.
Logo surgiu uma nova decisão. A partir de 2021, foi criado um projeto de Educação Física para os anos iniciais na Escola Izabel.
Sávio passou, então, a trabalhar com dois contratos: um com a Secretaria Municipal de Educação e outro com a Secretaria Municipal de Turismo, relacionado à escolinha de futebol.
UM PROFISSIONAL REALIZADO
Hoje, Sávio se considera um homem feliz. É casado com Taíssa Silva, desfruta de boa saúde, trabalha na área em que se formou e também concluiu o bacharelado em Educação Física.
Ele conta:
“Em meados de 2018, comecei o curso de bacharelado em Educação Física, que finalizei no fim do ano de 2020.”
Também faz questão de agradecer às pessoas que contribuíram para sua formação profissional:
“Agradeço a colaboração do professor Tiaraju, que foi importante nos meus estágios, e hoje em dia tenho a satisfação de poder trabalhar junto com ele.”
UMA MISSÃO A CUMPRIR
No final da entrevista, tomado pela alegria e pela gratidão, Sávio fala sobre sua trajetória e sobre a oportunidade de permanecer trabalhando na cidade onde nasceu e foi criado:
“Sou muito grato por poder trabalhar dentro da minha área, na cidade onde nasci e me criei. Enquanto muitos não tiveram essa oportunidade e, com isso, tiveram que partir em busca de outros caminhos e chances em outras cidades, eu pude seguir, fazendo minha história e minha caminhada no município de Tavares, que tanto amo e estimo.”
E, ao refletir sobre tudo o que viveu, Sávio encontra na fé uma explicação para a segunda oportunidade que recebeu da vida:
“Como conclusão, eu diria que, se Deus me deu uma nova chance de viver, acredito que é porque eu tenha uma missão importante ainda nessa vida. E quem sabe essa missão seja fazer a diferença na vida das pessoas, principalmente na vida das crianças e dos jovens, através do incentivo às práticas esportivas e de um seguimento neste caminho que os afaste de qualquer caminho ruim e possa ajudar na formação deles como pessoas e cidadãos de bem, que tenham disciplina, respeito e vontade de fazer a diferença dentro da sociedade.”
Por fim, Sávio deixa uma reflexão que traduz o significado que atribui à própria trajetória:
“E que, quando Deus achar que for o meu momento de ir embora dessa vida, que as pessoas possam lembrar de mim como aquele cara do esporte que foi importante e deixou o seu legado.”

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