sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DIEGO PAIVA: a limitação física não impediu a alegria de viver nem a vontade de seguir em frente




Há pessoas que, mesmo diante dos imprevistos que a vida lhes apresenta, encontram forças para seguir em frente sem perder a esperança e abrir mãos dos sonhos. Alto-astral, cheio de planos para os próximos anos e com a vontade de viver estampada no rosto, o jovem desta entrevista teve parte de seus projetos interrompida pelas circunstâncias, precisando mudar hábitos, adaptar-se a uma nova realidade e reaprender muitas coisas. A vida passou a exigir dele outros caminhos, novas perspectivas e uma capacidade de superação que talvez nem imaginasse possuir. Com resiliência e determinação, porém, compreendeu que nem sempre é possível escolher os desafios que surgem pelo caminho, mas é possível encontrar maneiras de enfrentá-los. Hoje, vivendo de forma diferente daquela que conhecia, ele demonstra que os imprevistos podem mudar os rumos da caminhada, mas não precisam apagar a alegria de viver nem a esperança de construir um futuro feliz.


Diego da Costa Paiva, ou simplesmente Diego Paiva, é um jovem cuja trajetória poderia ter sido marcada pelo desânimo e pelo isolamento após uma mudança radical em sua vida. No entanto, mesmo tendo se tornado paraplégico há 11 anos, ele mantém o alto-astral e conta sua história com tranquilidade, demonstrando que aprendeu a conviver com a nova realidade sem abrir mão da independência, dos projetos e da alegria de viver.


A entrevista foi marcada com uma expectativa que persistia em minha mente: quem é Diego Paiva hoje? A resposta começou a se delinear à medida que a prosa avançava. Diante de mim, estava um jovem cuja condição física não limitava sua maneira de pensar, seus planos ou sua disposição para a vida.


Aos 37 anos, natural de Tavares, Diego cursou a educação básica na Escola Estadual de Ensino Médio Edgardo Pereira Velho. Sua trajetória profissional começou a ganhar novos rumos em 2007, quando decidiu sair do município em busca de oportunidades.


Ele conta que foi para Gravataí, onde trabalhou por aproximadamente dois anos em uma empresa terceirizada da General Motors (GM). Como não enxergava possibilidades de crescimento profissional, decidiu deixar o emprego e retornar a Tavares. De volta ao município, trabalhou na Sul Pínus por cerca de dois anos. Ainda em busca de melhores perspectivas, partiu para Rio Grande.


Na cidade portuária, começou a distribuir currículos em busca de uma oportunidade de trabalho. Foi durante essa caminhada que surgiu uma possibilidade inesperada, a partir de um encontro casual.


Diego relata que, já no final de uma jornada de entrega de currículos, na região do porto, um senhor lhe ofereceu carona até o centro da cidade. Ao perceber que o jovem ainda carregava alguns currículos, comentou que também havia passado por aquela experiência quando era novo. O homem contou que possuía uma pequena empresa de conserto de embarcações e perguntou se Diego gostaria de trabalhar com ele.


No dia seguinte, Diego foi até o local e começou a trabalhar no almoxarifado. Uma semana depois, foi chamado para uma entrevista em uma empresa do porto. Havia dez candidatos disputando três vagas. Ao perceber que outros concorrentes estavam em situação de maior necessidade, decidiu desistir do processo seletivo e permanecer no emprego que já havia conseguido.


Posteriormente, participou de outra seleção, na qual foi aprovado. Dessa vez, encontrou uma oportunidade mais próxima daquilo que procurava profissionalmente.


O crescimento foi rápido. Em apenas cinco meses, recebeu uma promoção e, com um ano veio a segunda promoção. 


Entretanto, o cenário econômico mudou. Entre 2014 e 2015, a crise atingiu os empreendimentos do polo naval. Segundo Diego, os trabalhadores receberam férias coletivas, com a expectativa de retornar ao trabalho alguns dias depois. Mas a situação se agravou: de aproximadamente mil funcionários, restaram menos de cem. Diego permaneceu entre eles.


O ACIDENTE QUE MUDOU OS RUMOS DA CAMINHADA


Certa noite, por volta da meia-noite, Diego retornava de moto da casa da namorada quando sofreu o acidente que mudaria sua vida. Ao passar por um desnível na pista, perdeu o controle da motocicleta, que tombou, arremessando-o para longe.


Ao relatar o ocorrido, ele foi enfático: “o problema todo foi o desnível”.


Perguntei se havia ingerido bebida alcoólica. A resposta foi direta: “não”! Também quis saber se estava em alta velocidade. Ele esclareceu que não vinha tão devagar, "mais ou menos 50 km/h, acelerou para tentar passar antes de fechar a sinaleira".

"Mas se não tivesse o desnível não teria caído", repetiu.

Ainda no local do acidente, ao tentar se levantar, percebeu que algo grave havia acontecido: não conseguia movimentar as pernas. Mototaxistas que estavam nas proximidades acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Apesar da gravidade da situação, Diego conta que conseguiu manter a calma.


No hospital, recebeu a notícia de que havia fraturado duas vértebras da coluna. Permaneceu aproximadamente 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Rio Grande, antes de retornar para casa.


A partir daquele momento, começou um processo profundo de transformação. A nova realidade se impunha, e era necessário aprender a conviver com ela.


Diego sempre havia sido independente. De repente, passou a depender da ajuda de outras pessoas para realizar atividades cotidianas. A própria casa não oferecia a estrutura necessária para atender às suas novas necessidades. Até mesmo o banho exigia uma logística diferente: ele precisava atravessar a rua e ir até a casa do Zé Terrinha, onde havia um banheiro com espaço maior.


“Foi difícil sim, foi, eu e toda família fomos abalados”, confessa.


A RECONSTRUÇÃO DA VIDA E A CONQUISTA DA INDEPENDÊNCIA 


Aos poucos, segundo Diego, foi reinventando seu estilo de vida. Um dos momentos decisivos desse processo ocorreu quando recebeu a orientação de que deveria buscar atendimento especializado.


O médico que o atendeu em Rio Grande recomendou que procurasse o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência na reabilitação de pessoas com lesões neurológicas e comprometimentos motores.


A consulta foi marcada, mas somente seis meses após o acidente surgiu a oportunidade de viajar. Com o apoio do Estado para custear as despesas de deslocamento e a ajuda de conhecidos, Diego foi a Brasília, onde permaneceu internado durante um mês.


A experiência representou uma mudança significativa em sua trajetória.


“Mudou a minha qualidade de vida, a partir de então”, afirma.


Perguntei o que havia mudado e por quê. Ele explicou que, naquele período, aprendeu a viver na nova realidade e compreendeu que poderia continuar realizando muitas das atividades de antes, desde que adaptasse a maneira de fazê-las.


“É que daí aprendi como viver na nova realidade, que poderia viver como antes, porém de maneira diferente adaptada, hoje nem me vejo como cadeirante”, conclui.


A fala de Diego revela uma compreensão importante: a deficiência física trouxe limitações e exigiu adaptações, mas não eliminou suas possibilidades de construir uma vida ativa e independente.


O PRECONCEITO AINDA É UM DESAFIO 


Ao conversar sobre as dificuldades enfrentadas, Diego aponta o preconceito como um dos principais obstáculos. Para ele, muitas pessoas ainda não compreendem o que significa viver com paraplegia e acabam tratando a pessoa com deficiência de maneira diferente.


No início, ele sentia certo desconforto ao perceber os olhares de admiração ou curiosidade das pessoas. Com o tempo, porém, foi encontrando maneiras de lidar com essas situações e passou a demonstrar, por meio de suas próprias experiências, que a deficiência não define toda a existência de uma pessoa.


Hoje, Diego dirige seu próprio carro adaptado, viaja longas distâncias e organiza sua rotina com autonomia.


“inclusive, não me impede namorar”, diz, com um sorriso "malandro", ao comentar sobre sua vida afetiva. Na sequência, compartilha comigo algumas histórias que, por razões óbvias, não serão publicadas aqui.


O bom humor acompanha a conversa e ajuda a revelar outra dimensão de sua personalidade: Diego não fala apenas sobre superação, mas também sobre a vida cotidiana, os relacionamentos e as experiências que fazem parte de sua existência.


UMA VIDA ATIVA, SEM ABRIR MÃO DOS SONHOS

Já no final da entrevista, dentro de seu carro, em uma fria tarde de primavera sulina, em contexto de El Nino, Diego contou outras experiências que ajudam a compreender o grau de independência que conquistou.


Ele revelou que chegou a ter uma loja em parceria com a mãe, ela se ocupava mais com ela e ele buscava as mercadorias. Contou que costumava viajar sozinho de ônibus para Porto Alegre. Ao chegar à rodoviária, solicitava um carro por aplicativo, seguia até o centro da capital e circulava pela cidade em busca das mercadorias de que precisava para abastecer o estabelecimento. Depois, retornava tranquilamente.

Diego, na pandemia, chegou a trabalhar com a bolsa de valores, comprando e vendendo ações,  por mais de um ano. Até ganhou bom dinheiro, mas resolveu parar com este tipo de atividade econômica, pois ocupava muito seu tempo, às vezes, ficava todo dia envolvido com o negócio,  repensou e chegou a conclusão que precisava usar este tempo para o convívio com a família e os amigos.


A descrição dessas viagens evidencia o quanto aprendeu a reorganizar sua vida, encontrar soluções práticas e superar barreiras que, em outras circunstâncias, poderiam parecer intransponíveis.


“Hoje sou totalmente independente”, afirma, com um sorriso que traduz satisfação e confiança.


A independência conquistada não significa que todas as dificuldades tenham desaparecido. Significa, contudo, que Diego aprendeu a reconhecer suas possibilidades, adaptar-se às circunstâncias e seguir em frente sem permitir que a deficiência se tornasse o centro de sua existência.


A FÉ, A FAMÍLIA  E OS NOVOS PROJETOS 

Diego também fala sobre sua fé em Deus. Católico, demonstra acreditar que a força necessária para enfrentar as adversidades encontra amparo em sua espiritualidade.

Diego, no entanto, fez questão que registrasse um detalhe:

"Minha família e meus amigos de verdade, foram muito importantes na minha recuperação e se hoje estou aqui bem e feliz, foi por ter pessoas incríveis ao meu lado, minha família e amigos que considero da família".

Emociona-se ao falar no apoio do pai, da mãe,  dos irmãos e das sobrinhas que lhe dão muita alegria.

Sua história permite refletir sobre a resiliência humana e sobre a capacidade de reconstruir caminhos mesmo quando a vida apresenta situações inesperadas. A fé, a determinação e o apoio recebido ao longo da trajetória integram essa caminhada de transformação.


Mas Diego não parece disposto a encerrar sua história apenas com as conquistas pessoais. Há novos planos no horizonte.


Já no final da conversa, perguntei por que nunca havia ingressado na política, colocando sua disposição e sua experiência a serviço da comunidade.


Ele respondeu que já havia recebido convites, mas não os aceitara. Agora, entretanto, a possibilidade parece ter ganhado outro significado.


“já me convidaram, mas não aceitei, mas agora na próxima eu vou, sou pré-candidato a vereador”!


A declaração acrescenta um novo capítulo à trajetória de Diego Paiva. Depois de enfrentar uma transformação profunda em sua vida, reconstruir sua rotina e conquistar maior independência, ele demonstra disposição para assumir novos desafios.


A entrevista termina, assim, com a perspectiva de novos projetos. E talvez essa seja uma das características mais marcantes de Diego: a capacidade de olhar para o futuro sem permitir que as dificuldades do passado determinem, por completo, o que ainda está por vir.

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