Há histórias que estão nos livros, nos arquivos ou nos documentos oficiais. Outras permanecem guardadas na memória de pessoas que viveram outros tempos, acompanharam transformações e carregam consigo experiências que ajudam a compreender como uma comunidade chegou a ser o que é hoje. Ouvir as pessoas mais velhas, portanto, também é uma forma de preservar a história e reconhecer o valor de quem participou dela.
A memória de uma pessoa idosa pode revelar aspectos do cotidiano que muitas vezes não aparecem nos registros oficiais: os costumes, o trabalho, as dificuldades, as festas, as relações entre as pessoas, as mudanças na cidade e no campo e as diferentes maneiras de viver em cada época. São lembranças construídas ao longo de décadas que, quando compartilhadas, ajudam as novas gerações a compreender não apenas o passado, mas também o presente.
Baseado nessa compreensão, o ESPAÇO DE REFLEXÃO procurou a senhora Terezinha Costa Paiva para ouvi-la. Dona Terezinha — como prefiro chamá-la — tem 92 anos e conserva uma memória lúcida, capaz de recuperar muitos acontecimentos de um passado distante.
Nascida em 6 de dezembro de 1934, é filha de Antônio Severino Costa, conhecido como Bíbi, e de Angelina Menegatti. Dona Terezinha nasceu em Tavares, cresceu na comunidade, saiu para estudar e depois retornou. Foi em sua residência que ela recebeu gentilmente o ESPAÇO DE REFLEXÃO e, prontamente, começou a falar sobre experiências e acontecimentos que marcaram sua vida.
A família era composta por cinco irmãos: Helena, Yolanda, José, Maria e Terezinha.
Segundo Dona Terezinha, sua mãe era de origem italiana e filha de pescador. Foi em Rio Grande que Angelina conheceu Antônio Severino Costa, quando ele esteve naquela cidade para servir ao Exército.
A formação no Magistério
Terezinha viveu sua adolescência em Tavares e, posteriormente, foi estudar em Santa Cruz do Sul, onde cursou o Magistério, em uma formação voltada para professores rurais. Foram quatro anos de estudos, seguidos pelo retorno a Tavares para exercer a profissão.
A irmã Yolanda seguiu o mesmo caminho. Inspirada pelo exemplo de Terezinha, também realizou o curso e, mais tarde, passou a lecionar.
Formada no Magistério, Dona Terezinha começou a trabalhar na Escola Rural Isolada de Tavares, que, naquela época, atendia estudantes até a terceira série. Ela foi a primeira professora da escola. Depois, sua irmã Yolanda também começou a lecionar na mesma instituição.
A trajetória profissional das duas irmãs se confunde, assim, com um período importante da história da educação em Tavares.
Terezinha foi professora na Escola Edgardo, foi diretora da escola, e mais nos anos 90, já aposentada ocupou o cargo de Secretaria Municipal de Educação de Tavares. Como percebemos ela ocupa algumas páginas na história da educação tavarense.
Família e vida comunitária
Dona Terezinha casou-se aos 20 anos com Juvenal Paiva Filho. O casal teve três filhos: Vera, Maria de Fátima e Jairo.
Aos 92 anos, ela ainda conserva relativa autonomia. Caminha pelas ruas da cidade e vai ao banco, mantendo uma rotina que demonstra sua disposição e independência.
Ao recordar a trajetória da família, Terezinha fala com carinho do pai. Segundo ela, Antônio Severino Costa, o Bibi, era um homem comunitário. A família era católica e ele tinha a ideia de construir uma igreja para a prática religiosa da comunidade.
Antes da construção do templo, foi erguido um barracão destinado à realização de quermesses. Os eventos tinham a finalidade de arrecadar recursos para a construção da igreja.
Segundo Dona Terezinha, a área onde a igreja foi construída foi doada pelo senhor Abílio Vieira. Ela acompanhou de perto o processo de construção.
Entre as lembranças daquele período, recorda que ela e a irmã Yolanda, montadas nos cavalos Mouro e Malacara, percorriam as casas dos vizinhos para buscar lampiões que seriam utilizados na iluminação do salão durante as quermesses. Quando a distância era maior, quem fazia esse trabalho era Rosa Estevo. Depois dos festejos, as duas irmãs voltavam para devolver as lamparinas às famílias.
Dona Terezinha também recorda que, naquela época, o salão era dividido em duas partes: uma destinada às pessoas brancas e outra às pessoas não brancas. Segundo seu relato, essa divisão era rigorosamente respeitada.
Para a construção da igreja, foi contratado um mestre de obras de Porto Alegre, chamado Adão. Com ele veio Osmar Quintino do Nascimento, que, durante esse período, acabou conhecendo a empregada de seu pai Geny Terezinha de Souza, mais conhecida por Lucha. Isso resultou em namoro e casamento. Ele passou a ser conhecido por Osmar Capela. Ficou residindo em Tavares.
Uma Tavares de outros tempos
Ao buscar na memória outras lembranças de sua juventude, Dona Terezinha recorda a existência de uma cancha de carreiras onde hoje está localizada a Avenida Onze de Abril. Local de divertimento da comunidade.
Ela também lembra que havia um campo de aviação em Tavares, onde pousavam pequenas aeronaves, os chamados “teco-tecos”. Ao falar sobre o assunto, Dona Terezinha sorri e faz uma comparação com os dias atuais: hoje Tavares não dispõe de espaço para pouso de aviões, mas, naquela época, havia.
Entre as histórias que guarda na memória está a de um cachorro que teria causado danos à hélice de um avião, impedindo que a aeronave pudesse retornar. Seu pai possuía um rádio amador, identificado pelo prefixo PY3FX, e utilizou o equipamento para comunicar o ocorrido e solicitar socorro.
As viagens e as dificuldades das estradas
Quando questionada sobre as viagens realizadas naquela época, Dona Terezinha lembra que São José do Norte era um dos destinos.
As viagens, porém, eram difíceis. As estradas apresentavam condições precárias, com trechos de areia e barro, o que tornava os deslocamentos demorados e trabalhosos.
A família vivia do comércio e mantinha um armazém, as chamadas “vendas”. Foi nesse contexto que também foi construída uma barraca às margens da Lagoa dos Patos, na localidade de Barboza, destinada a receber mercadorias que chegavam por embarcações vindas de Porto Alegre e Rio Grande.
Uma vida simples e comunitária
Dona Terezinha recorda aquele período como uma época de vida tranquila. Antes da existência de uma escola estruturada, sua mãe era quem alfabetizava os filhos. Mais tarde, seu pai conseguiu uma professora vinda de Rio Grande.
O rádio era o principal meio de comunicação, embora poucas famílias tivessem acesso ao aparelho.
O atendimento médico também era raro na comunidade. Dona Terezinha lembra da existência de Zé Padre, que receitava medicamentos. Questionada sobre a origem dos remédios, não soube precisar de onde vinham, mas lembra que estavam disponíveis. Segundo sua lembrança, havia também medicamentos que, aparentemente, eram produzidos pela própria comunidade.
Ela recorda ainda que o Dr. Sábio teria sido o primeiro médico da região. Seu pai, segundo Terezinha, organizou uma espécie de pronto-socorro, reunindo equipamentos como autoclave, bisturis e tesouras. Pequenas cirurgias também eram realizadas naquele espaço.
O comércio, a produção e a vida cotidiana
Ao falar do pai, Dona Terezinha demonstra carinho e admiração. Para ela, Bibi era um líder comunitário. Também lembra que a primeira versão do Clube Tavarense foi construída por ele.
A família produzia boa parte dos alimentos que consumia. Dona Terezinha conta que fazia pães e que também eram criados porcos, galinhas e ovelhas. Havia hortas com legumes, verduras e frutas.
Era uma vida em que grande parte da alimentação era produzida na própria comunidade, revelando um modo de viver bastante diferente dos dias atuais.
Memória que preserva a história
Este relato, construído a partir da conversa com Dona Terezinha Costa Paiva, ainda está em processo de construção. Afinal, são lembranças de acontecimentos vividos há muitas décadas e, naturalmente, pode haver alguma confusão ou imprecisão em determinados detalhes.
Certamente, o texto poderá receber correções e complementações após ser lido por pessoas que conhecem a história de Tavares e que possam contribuir para esclarecer ou confirmar alguns dos acontecimentos relatados.
É justamente nesse processo que a história oral encontra sua importância. A memória de uma pessoa constitui uma parte da memória coletiva, mas pode ser complementada por outros relatos, documentos e registros.
O que está aqui é aquilo que a professora Terezinha Costa Paiva lembra de sua vida e de uma Tavares de outros tempos.
Ouvir Dona Terezinha é, portanto, mais do que recordar. É buscar, por meio de sua memória, fragmentos de uma história que pertence também à comunidade. São lembranças que ajudam a construir uma ponte entre gerações e a preservar acontecimentos que, sem o registro da memória de quem os viveu, poderiam desaparecer com o passar do tempo.
O ESPAÇO DE REFLEXÃO continua, assim, indo ao encontro das pessoas para ouvir suas histórias e trazer ao presente aquilo que o tempo não conseguiu apagar.

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