Durante muito tempo, o futebol de campo foi uma das mais marcantes formas de lazer e de convivência social em Tavares. Nos fins de semana, uma parcela significativa da população se deslocava até os campos de jogo.
Cada equipe levava consigo um grupo de torcedores, além daqueles que simplesmente não queriam perder a oportunidade de assistir a uma boa partida.
Para chegar aos locais dos jogos, valia de tudo: alguns iam a pé, outros a cavalo, de caminhão ou nos seus automóveis. O importante era estar presente. Afinal, naquele tempo, ninguém queria perder o jogo.
Foi nesse cenário que João Francisco Pires da Silva construiu uma trajetória de 24 anos dedicados ao futebol. Dos 16 aos 40 anos, entre 1969 e 1993, viveu intensamente o esporte que lhe proporcionava satisfação pessoal e, ao mesmo tempo, levava alegria às equipes e às torcidas por onde passou.
O ESPAÇO DE REFLEXÃO entrevistou esse personagem de uma época importante do futebol tavarense. João Francisco Pires da Silva pode não ser imediatamente reconhecido pelo nome. Mas basta dizer João do Apune e, para 99,99% das pessoas que viveram aquele período, a identificação é imediata.
Nascido e criado no Campo da Honra, em Tavares, João do Apune hoje tem 73 anos. Um jovem que o encontrasse atualmente talvez jamais imaginasse o que aquele homem representou para o futebol tavarense entre 1969 e 1993.
Aos 15 anos, João deixou a casa dos pais e passou a trabalhar como empregado em propriedades rurais, realizando as diversas lides do campo. Mais tarde, constituiu sua família. É casado com Ireni e pai de Marcelo e Raquel.
Será lembrado por muitos como atleta, mas, antes de tudo, João do Apune é — e continua sendo — um cidadão que construiu sua história com trabalho, simplicidade e dedicação.
Hoje aposentado, continua vivendo em sua propriedade rural, onde cria suínos, galinhas, cavalos e bovinos. E guarda algo que talvez seja tão valioso quanto qualquer troféu: uma memória extraordinária de sua trajetória no futebol.
João sabe dizer em quais anos jogou por cada equipe, quando foi campeão ou vice-campeão e, se perguntado, é capaz de lembrar até mesmo o resultado de determinadas partidas.
Com carinho e um semblante alegre, João do Apune recorda os momentos felizes que viveu como jogador.
Ao ser perguntado sobre quando perceberam que aquele adolescente possuía habilidades diferenciadas para o futebol, ele voltou no tempo e lembrou dos tempos de escola.
Ainda com 13 ou 14 anos, já ouvia das pessoas:
“Esse guri vai ser bom!”
E quem enxergou talento naquele menino não estava enganado.
Aos 16 anos, João disputou seu primeiro campeonato, em 1969, pela segunda equipe do Tavarense. No ano seguinte, foi para o Esporte Clube Gaúcho Nacional, onde permaneceu em 1970 e 1971, já atuando pela primeira equipe.
Como zagueiro, João do Apune encantava quem o assistia jogar. Tinha domínio da bola, visão de jogo, atenção constante ao que acontecia ao seu redor e uma marcação implacável.
Era, nas palavras que a memória daqueles tempos permite imaginar, uma espécie de “artista da bola”.
Assistir a João jogar era quase como assistir a um espetáculo. Sua habilidade, rapidez e capacidade de raciocínio faziam a diferença. Ele parecia calcular a jogada antes mesmo de a bola chegar aos seus pés. Antecipava o movimento do adversário e, muitas vezes, já sabia o que fazer antes que a jogada se completasse.
Era velocidade de pensamento aliada à destreza física.
Interessante, João em dias de jogos muitas vezes trabalhava na roça toda manhã, nada de concentração, pelo contrário, se esforçava, o que podia o deixar fraco. Que nada, estava entre os que mais tinha vigor!
Uma carreira marcada por títulos
João do Apune lembra com precisão as equipes pelas quais passou e os campeonatos que disputou:
1972 a 1977: jogou pelo Tavarense, sendo campeão em 1972 e 1977;
1978: disputou o campeonato pelo Duque de Caxias;
1979: jogou a Divisão de Acesso pelo Duque de Caxias, mas a equipe não conseguiu subir para a Divisão A;
1979 a 1982: atuou pelo Esporte Clube União, sendo campeão em 1979, 1980 e 1982;
1983: não houve campeonato;
1984: voltou ao Tavarense e foi vice-campeão;
1986: jogou pelo Estrela Gaúcha, do Campo da Honra;
1987 a 1990: atuou pelo Gaúcho, sendo três vezes vice-campeão e uma vez campeão;
1991 a 1993: voltou ao Tavarense, conquistando dois títulos.
Em 1993, aos 40 anos, João encerrou a carreira.
Perguntei se ainda poderia ter jogado por mais tempo. A resposta foi simples: talvez pudesse, mas preferiu parar enquanto ainda estava em alto nível.
Era uma maneira de deixar na memória aquele atleta quase sempre preciso, veloz, forte e habilidoso.
Ao recordar o futebol daquele período, João do Apune também faz questão de lembrar outros jogadores que marcaram sua geração. Entre eles, cita Geraldino, Altêmio, Pintinho, Lésio, Airton e Silmar.
Quando a pergunta foi sobre os atacantes mais difíceis de marcar, alguns nomes vieram rapidamente à memória: Tácito, Barro e Vanderlei.
E entre os bons goleiros daquela época, lembrou de Marico.
Mas não eram apenas os jogadores que faziam o espetáculo.
Quando a torcida também jogava
João recorda com carinho das torcidas que acompanhavam as equipes. Segundo ele, muitas vezes o ambiente nos campos era tomado por um barulho ensurdecedor.
A paixão era tanta que, em determinadas ocasiões, os jogadores sequer conseguiam ouvir o apito do árbitro.
Era um futebol em que a torcida fazia parte do espetáculo. O jogo não acontecia apenas dentro das quatro linhas. A emoção estava também do lado de fora, nos gritos, nas provocações, nas comemorações e na presença das famílias e dos amigos.
Ao ouvir João do Apune falar sobre o futebol de sua época, fica difícil não perceber o quanto aquelas lembranças permanecem vivas. Não apenas na memória dele, mas também na daqueles que jogaram, torceram ou simplesmente acompanharam os jogos daquele tempo.
O futebol de antigamente era mais do que uma competição. Era encontro, convivência, diversão e pertencimento. Era uma parte importante da vida social de Tavares.
Quando somos jovens, o que nos move são os planos, os sonhos e aquilo que ainda queremos conquistar. Depois de certa idade, aos 60, 70 anos ou mais, são também as boas lembranças que nos sustentam.
E João do Apune é um homem felizardo nesse sentido.
Aos 73 anos, carrega consigo uma história de trabalho, família e, sobretudo, 24 anos de boas memórias vividas dentro dos campos de futebol de Tavares.

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