sábado, 22 de agosto de 2026

A EPOPEIA DE VILSON SARAIVA PELA LAGOA DO PEIXE




Hoje, aos 80 anos, Vilson Saraiva vive uma vida tranquila. Em seus aposentos, fala com suavidade e serenidade, como quem carrega no olhar e nas palavras muitas histórias vividas. Mas nem sempre foi assim.

Pouco mais de 20 anos, Vilson era, como alguns costumavam dizer, a “mão direita” de seu pai, Homero Saraiva, produtor e comprador de cebolas. Foi nessa época que Homero lhe entregou um caminhão Chevrolet Brasil, confiando ao filho a missão de transportar e vender a produção.

Vilson levava a cebola até São José do Norte, numa viagem que, para os padrões de hoje, parece uma verdadeira aventura. O caminho atravessava a região da Lagoa do Peixe e seguia pela margem do Oceano Atlântico.

A tranquilidade — ou a falta dela — dependia, principalmente, da quantidade de água encontrada pela frente. Havia dias em que, ao chegar à margem da lagoa, era preciso preparar o caminhão para enfrentar a travessia. Esticavam-se as molas e colocavam-se calços, pedaços de madeira usados para levantar um pouco mais o motor e evitar que a água o atingisse. Em algumas ocasiões, ainda era necessário colocar correntes nas rodas para facilitar a passagem.

Era comum a água entrar pelo acelerador e os pés dos caminhoneiros ficarem dentro d’água, na cabine. Visto de hoje, parece difícil imaginar que um caminhão carregado de cebolas pudesse enfrentar aquelas condições. Mas era assim que se fazia.

E não bastava coragem. Era preciso conhecer o caminho, ter habilidade ao volante e, sobretudo, saber interpretar a natureza.

Antes mesmo de chegar à lagoa, havia o trajeto da Vila até o Mato da Costa. Naquela época, o caminho podia ficar bastante precário, especialmente porque o transporte da cebola podia se estender até os meses de maio ou junho, quando as condições das estradas eram ainda mais difíceis.

Vilson recorda uma dessas viagens em que um percurso de menos de dez quilômetros levou um dia inteiro. O caminhão enfrentou diversos atoleiros e, em alguns pontos, foi necessário contar com o socorro de tratores para continuar a viagem.

Quando se fala em atravessar a Lagoa do Peixe, na verdade eram três lagoas que precisavam ser vencidas. O percurso podia levar cerca de uma hora, pois o caminhão avançava lentamente, quase parando em determinados trechos, enquanto Vilson seguia atento a cada metro do caminho.

Depois de vencer as lagoas, chegava-se à beira-mar. A partir dali, a viagem seguia pela praia em direção a São José do Norte.

Mas ainda havia outro obstáculo: a Barra do Estreito.

O local era formado por um pequeno riacho, aberto naturalmente pelas águas que desciam das propriedades em direção ao Oceano. Dependendo da profundidade da barra, não havia como prosseguir. Era preciso esperar a água baixar.

E esperar podia significar muito mais do que algumas horas. Em determinadas situações, os caminhoneiros permaneciam até dois dias naquele lugar ermo, sem alimento e sem água.

Nessas horas, a solidariedade fazia diferença.

Para sorte dos caminhoneiros, muitas vezes a linha de ônibus entre São José do Norte e Mostardas fazia o trajeto pela praia, justamente em razão das péssimas condições da chamada Estrada do Inferno. Quando avistavam o ônibus, os caminhoneiros faziam sinal para que parasse. Alguns passageiros, sabendo da situação daqueles homens, deixavam água e algum alimento.

Pequenos gestos, em meio à imensidão da praia, podiam representar muito.

Pensando nisso hoje, alguém poderia perguntar: o que levava aquelas pessoas a se submeterem a tantas dificuldades?

A resposta era simples: era a alternativa que existia para escoar a safra de cebola. O caminho era difícil, perigoso e cansativo, mas, naquela época, também podia proporcionar bons lucros.

Depois de aproximadamente 130 quilômetros de viagem, Vilson finalmente chegava a São José do Norte, onde a cebola era vendida. Mas a jornada ainda não terminava. Às vezes, era necessário esperar dois ou mais dias na fila ou aguardando que o preço melhorasse.

Depois da venda, o dinheiro era trazido de volta em um saco de linhagem, guardado atrás do banco do caminhão.

No retorno, era comum trazer adubo da Refinaria Ipiranga, de Rio Grande, aproveitando a viagem para transportar outra carga.

Vilson também guarda na memória situações curiosas daquela época. Conta que, certa vez, transportou 50 trabalhadores para um granjeiro de arroz.

Ao lembrar daqueles tempos, também recorda alguns dos caminhoneiros que compartilhavam as mesmas estradas e aventuras: Zé Franco, Paulo Mendes, Nandico Brum, Roque Nunes, Fominha, Rui Brum, Quido, Edino da França e Dario Pacheco.

Daquela turma, segundo Vilson, ainda estão vivos apenas ele e Roque.

E assim, entre atoleiros, lagoas, água entrando na cabine, esperas na Barra do Estreito, travessias pela praia e quilômetros de estrada difícil, foi sendo escrita uma pequena epopeia dos caminhoneiros que enfrentavam a Lagoa do Peixe.

Hoje, aos 80 anos, Vilson conta tudo isso com alegria. Não fala como quem reclama das dificuldades, mas como quem revisita uma parte importante de sua vida.

Talvez seja esse o encanto das histórias antigas: aquilo que um dia foi dificuldade, medo e cansaço, com o passar do tempo transforma-se em memória, aventura e orgulho.

E Vilson, com sua fala tranquila, é uma dessas memórias vivas de um tempo em que chegar ao destino exigia muito mais do que simplesmente pegar a estrada.

Vilson hoje casado com a Cleci, pai da Josi e Valéria é um homem feliz e bom de prosa, com aquele sorriso um tanto  malandro, vive com profundidade seus 80 anos e suas memórias. 

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